sábado, 26 de maio de 2012

se luasse sempre assim...




Todos os mapas
foram engolidos pela grandeza
daquele pequeno e populoso instante

a lua,
como sempre discreta companheira
da imensidão escura da noite,
desceu aos pés do rio
e germinou mais um delírio
em suas águas

seu peso onírico
ondulou a superfície,
flagra de um excesso
de deserto
a pulsar

Monet constava traço
em um dos cortes.
Impressão minha?


O fato é que a lua
parecia cortar o rio
e com ele a própria noite

abria-se fresta
no reino infinito das sombras

alguma esfera desonrada de mim
ainda buscava unidade
naquele esplendor

mas aos poucos
as ondas cresciam a fazer (-se
enquanto sexto) sentido,
estranho e sóbrio

absurdo converter em ganho as alusões,
sinuosas espirais da madrugada eterna

a face de todos os dramas
é o retrato do fracasso do eu

a imensidão serena e abissal continua,
procissão de poemas
que o abismo não cessa de escrever
com a tinta barroca
da noite que plana.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Poesia, filosofia e crítica

"O mais recente" (1967)
René Magritte


Terminei de ler o livro "Poesia e Filosofia", escrito pelo poeta brasileiro Antonio Cicero. O livro é muito bom e traz várias questões importantes sobre as relações construídas entre ambos os discursos, ao longo da história e do debate intelectual. Antes de refletir sobre um ponto em particular, destaco aqueles que achei os mais relevantes: a arte como algo a mais que a comunicação; a poesia como algo mais que versos; a complexidade como valor fundamental da filosofia; os meios, formas e noções tradicionais como acidentes e não como essência da poesia - e a ligação desta descoberta com as vanguardas do início do século XX; e, claro, a irredutibilidade de poesia e filosofia uma à outra.

Quero me ater a um ponto, que acho o mais instigante do tema. Antonio Cicero alerta para essa irredutibilidade, que acabo de mencionar, por uma via que possui algumas nuances interessantes. Ao citar, por exemplo, a crítica, ele lembra que o verbo criticar significa "separar e distinguir" (p. 107). E então coloca que dar nomes, definir e classificar as coisas são, todas, manifestações da crítica, na medida em que distinguem as coisas. E acrescenta a filosofia a esse patamar.

Uma das principais distinções que Cicero estabelece entre filosofia e poesia estaria no fato de que a primeira joga o jogo das proposições, que visam um fim - ou seja, no caso dela, definir uma hipótese ou conclusão para algo -, enquanto que a poesia não visa "fins". Ele afirma que, longe de ser um meio de expressão, "para o poeta, a poesia é o seu fim" (p. 17). Isso quer dizer que a poesia é essencialmente um exercício de forma, ou seja, a forma em estado bruto, sem os utilitarismos das outras linguagens. Com isso eu concordo plenamente.

Entretanto, acho que é preciso pensar na ideia da crítica de uma outra forma. Kant não propunha a crítica apenas como "distinção", mas como um olhar da razão em direção a si mesma. A "crítica da razão pura" é exatamente a razão pura se olhando no espelho e, neste momento, se percebendo enquanto.. forma. Em suma, ao "penso, logo existo" de Descartes, Kant acrescenta a crítica, ou seja, o "penso que penso, logo existo". "Penso que penso" significa: "pensar exige pensar sobre o pensamento, no âmbito da razão". E 'pensar sobre o pensamento' significa pensar sobre 'o que me permite pensar' como parte irredutível do próprio ato de pensar. Quando penso sobre uma janela, por exemplo, no ato em que ela me aparece, aparece enquanto janela E enquanto pensamento-janela. Um não existe sem o outro. O trabalho do filósofo seria, então, o de pensar sempre a partir dessa premissa, ou seja, a de que não existe conteúdo puro, sem uma forma que compareça junto e no mesmo instante.

Pedro Duarte, num livro que já resenhei por aqui, e que se chama "Estio do Tempo", lembra, ao falar da arte "moderna" (ou seja, pós-crítica kantiana), que ela-arte, hoje, suscita, "além da fruição imediata, a submissão dessa fruição à consideração pensante" (p. 42). Ele quer dizer, como mostra no decorrer de seu livro, que não existe mais obra de arte que não seja eminentemente "filosófica", na medida em que entendemos que filosofia não é mais apenas o que era para os gregos, que a tomavam como uma superação dos mitos. Filosofia é, hoje, o jogo conceitual da "reflexão", ou seja, do pensamento que se exercita como forma-conteúdo ao mesmo tempo. Não é à toa que a objetividade dos empiristas do século XVIII e XIX não colou.

Em outro trecho, Cicero lembra de características que seriam da alçada exclusiva da poesia, como sensibilidade, intuição, senso de humor (p. 15). Mas isso foi incorporado à prática filosófica exatamente pelo grupo dos primeiros românticos alemães, grupo esse o principal protagonista do livro de Duarte. E a mensagem parece ser a seguinte: mesmo que os conceitos não sejam exatamente poemas, eles passam a incorporar, em sua construção, a obrigação de falar enquanto "forma-pensamento". E essa forma-pensamento não existe sem esses elementos, como a sensação e o subjetivo, ou seja, isso que se entende como sendo o 'irracional' de maneira geral. Não é à toa, inclusive, que no século XX Deleuze vai propor que o conceito tem que passar a ser uma figura "expressionista" da consciência (ver 'Conversações').

De qualquer forma, concordo com o Cicero quando ele diz que o relativismo contemporâneo acaba levando a tolices, como o papo furado de que não é possível estabelecer juízos de valor a respeito de nada. Como ele bem coloca, uma coisa é dizer "gosto de tal fruta". Nesse caso, a questão do gosto é subjetiva (e mesmo aí, sob uma perspectiva psicanalítica, é possível problematizar o gosto). Mas a obra de arte, e também os conceitos da filosofia, não só podem, como devem ser pensados em uma lógica comparativa, que defina sua validade em relação às demais produções de seu campo discursivo. Não pode valer tudo em poesia e em filosofia.

Mas isso também não distingue de forma absoluta os dois discursos, poesia e filosofia, na minha visão. Se entendermos que a crítica passa a ser o principal referente dos conceitos, e se entendermos que não há obra moderna que não tenha que ser "crítica", passaremos a concordar que um poema só ultrapassa o estágio inicial de um monte de versos agrupados quando, e somente quando, problematiza de forma crítica o que diz. Mais radicalmente falando, é preciso sacar que crítica não é só distinção, mas deslocamento de lugar. E deslocamento de lugar é o que a poesia mais sabe fazer com o sentido, seu refém eterno.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Bergman no CCBB



Ontem fui à mostra do Bergman, no CCBB, e pude ver o "Vergonha", belo filme, que ainda não tinha assistido. A mostra começou no dia 8 desse mês e vai até o dia 10 de junho. Todos os grandes filmes do mestre vão ser apresentados, numa média de 3 a 4 por dia.

Sobre o filme, conta a história de um casal que vai morar numa ilha para fugir da guerra. Tudo caminha bem e eles curtem as idiossincrasias de todo casal, os planos para ter filhos, o dia a dia etc. Há, claro, uma atmosfera diferente, que aos olhos de uma pessoa de hoje pode parecer inclusive inocente. Mas isso parece ter a ver com o título da obra.

A palavra "Vergonha" tem três sinônimos principais: desonra, timidez e humilhação. Em intensidades diferentes, os três comparecem na trama. O tímido casal, acostumado a viver afastado na ilha, se vê desonrado e humilhado pelas várias situações bizarras que a guerra lhes traz. E fica um sentimento de que ali, naquela época, pairava um deslocamento de atmosfera para o imaginário humano, que o cineasta capta bem, com toda a sua inteligência e bom gosto: um corte que apresenta ao ser humano daquela geração os horrores e desonras da guerra e do que o homem é capaz quando inserido nesse tipo extremo de situação.

No que me diz respeito, a experiência foi a de entrever esse epitáfio da inocência, que marca todos os períodos mais pesados da história. Uma sensação que o preto e branco e o ótimo desempenho do elenco realçam ainda mais. Se você mora no Rio, não deixe de visitar a mostra. Ao que parece, ela vai pra São Paulo também. Você consegue mais informações no site mostraingmarbergman.com.br . Vale muito a pena e o Im-postura indica.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

neste inexato momento

A Residência de Jas de Bouffan (1878)
Paul Cezanne




neste momento
vários crimes
estão sendo cometidos

vários segredos
afogados
no rio seco da memória

vários sonhos
que contaminam vigílias

primaveras que s'obram
de certas flores

várias lágrimas que descem,
por aí,
as ladeiras do orgulho.

neste momento,
o poema se des
dobra
para fora

terça-feira, 15 de maio de 2012

Estruturalismo X hermenêutica




Hoje, mais cedo, reli, de passagem, um trecho da Microfísica do Poder do Foucault, que me chamou a atenção para um detalhe de certa forma recorrente nos últimos tempos. Diz ele: "Admite-se que o estruturalismo tenha sido o esforço mais sistemático para eliminar, não apenas da etnologia, mas de uma série de outras ciências e até da história, o conceito de acontecimento. Eu não vejo quem pode ser mais anti-estruturalista do que eu" (p. 5).

Para quem não conhece, o termo "estruturalismo" nasce na obra do pioneiro da linguística, Ferdinand de Saussurre, que inventa o termo e o apresenta como um modelo que apreende a realidade como um jogo que se dá entre equivalências e oposições, geralmente mediado pela linguagem. As teses do Saussurre influenciam praticamente todas as disciplinas humanas da primeira metade do século XX, incluindo a antropologia de Levi-Strauss, a Escola de Frankfurt e, mais adiante, a psicanálise de Jacques Lacan.

Entretanto, ultimamente ela anda esquecida. Pior: anda menosprezada. E em prol de um certo otimismo vazio com a tal da "hermenêutica", que traduzida se mostra uma crença em um relativismo absoluto, em alguns autores meio disfarçado, mas intensamente atuante. Em outras palavras, uma ditadura da opinião, ou da interpretação, como situa o filósofo alemão Hans Gumbrecht em um trabalho seu recente, "Produção de Presença".

Vale dizer que a afirmação do Foucault tem uma explicação de época. Ela data de 1977, época que coincide com o início desse menosprezo pelo estruturalismo. E cabe explicar o porquê.

A principal crítica ao estruturalismo é a de que ele passa a considerar a realidade a partir de uma perspectiva muito "determinista". Ou seja, para os autores que o criticavam, o estruturalismo pensava a vida humana como uma escravidão, na qual o ser humano ficava enjaulado por tal ou qual ideologia, sem conseguir escapar. E aí, não sobrava espaço para uma certa autonomia do sujeito, em relação ao "sistema" (ou à "ideologia", ou sinônimo que o valha).

Acho a crítica exagerada. Há trabalhos bem interessantes do estruturalismo, como por exemplo a análise da poética do Roman Jacobson, que vai propor que existe vida para além dos códigos ideológicos. O próprio Roland Barthes vai chegar ao seu "prazer da leitura" depois de também refletir bastante a respeito da ideologia. E mesmo o Lacan vai exercitar o significante de uma forma que pode ser tachada de tudo, menos de determinista.

O que me parece claro é que, para além de eventuais determinismos, o estruturalismo não era uma forma de análise inocente. Há o risco da paranoia? Talvez. Uma pessoa que só lesse os textos mais pessimistas do estruturalismo talvez achasse realmente que a vida é uma grande perseguição. Mas se você lê de forma mais ampla, essa linha auxilia a entender que os processos do poder não são tão simples como aparentam. O oposto dos que acreditam na hermenêutica, que tendem a achar que nada fura a capacidade de autonomia do sujeito interpretante.

Não é à toa que o caso do wikileaks, por exemplo, deixou muita gente da mídia de cabelo em pé. Eles selecionam as notícias que divulgam porque não podem sair queimando todo mundo. A estrutura age, de certa forma, para tentar controlar isso. Mais atrás dela, existe o vazio constitutivo de todo sentido, que a poesia nos ensina bem. Mas na capa da frente, o que não falta é gente querendo passar uma cola pra dar a impressão de que o vazio não existe. O olhar estruturalista certamente é um viés de análise que faz perceber essas coisas. A hermenêutica não, porque o observador tende a acreditar demais nas próprias premissas, o que invariavelmente atrapalha qualquer análise.

E é por isso que continuo discordando do Foucault, ao menos nesse ponto. O estruturalismo não acaba com o acontecimento. Ele permite que o olhar não seja precipitado, uma crença falha, ou então a produção de uma autoria vazia que nada mostra. Aliás, o próprio Foucault já foi acusado, por alguns, de ser um pensador que não produz acontecimentos, por conta de sua obra, que denuncia os discursos, mas sem criar em cima. Me parece igualmente injusto, porque a denúncia em si já é criativa, na medida em que torna explícito que existem estratégias que tentam retesar o sentido, para que todos pensem igual. Se não produz um acontecimento efetivo, abre, ao menos, uma bifurcação, onde antes só havia linha reta...

sábado, 12 de maio de 2012

Profanações




"Elogio da Profanação", o último ensaio do livro 'Profanações', do pensador italiano Giorgio Agamben, resume bem suas intenções críticas, que ele exercita nos outros textos. O livro é um convite constante à reflexão, dado que Agamben transita com desenvoltura por diversos campos de conhecimento, desde a literatura até a filosofia, passando pela história da arte, história da religião, política e psicanálise. E há um diálogo crítico que ele estabelece nesse último texto, e que vale a pena desmembrar um pouco, diante de seu potencial crítico.

A questão gira em torno de repensar a ideia da religião como um campo separado. Isso certamente não é novidade para quem estudou ou estuda teses como a do estruturalismo, por exemplo, porque quem conhece bem noções como a de "estrutura", "forma", ou mesmo o conceito de "estética", entende a importância de se olhar não apenas para a aparência do sentido, mas também, para além dele, analisar o seu modo de funcionamento e suas obscuridades e sombras.

Agamben o faz através da noção de "profanação". 'Profanar', segundo ele, significa devolver ao uso do homem o que antes havia ganhado um sentido sagrado ou religioso (p. 65). Profundo conhecedor de história da linguagem, o autor nos esclarece que, diferente do que o senso comum acredita, a palavra religião não deriva do sentido de religare, que seria "o que liga e une o humano e o divino", mas sim de relegere, ou seja, aquilo que existe para manter divino e humano, sagrado e profano, separados, portanto distintos. E essa separação se sustenta no capitalismo espetacular que vivemos, o que, como veremos, realça ainda mais a importância da ideia da profanação.

Fugindo do lugar-comum, o autor propõe, lembrando Benjamin, que "o capitalismo não representa apenas, como em Weber, uma secularização da fé protestante, mas ele próprio é, essencialmente, um fenômeno religioso, que se desenvolve de modo parasitário a partir do cristianismo" (p. 70). Com o agravante de que, ao contrário do cristianismo antigo, que jogava para expiar a culpa, o capitalismo tardio o que faz é investir nela-culpa como um de seus elementos preponderantes. Isso é fácil de perceber quando pensamos na crescente perda de força da ideia da duração, nos produtos que são consumidos. Já trabalhei muito essa comparação com os alunos, quando cito o exemplo de um certificado de garantia de um fecho de geladeira antigo que achei arrumando um armário antigo para minha falecida avó. A garantia era estampada em letras garrafais: UM SÉCULO. Exagero? Talvez.. Mas inegavelmente um investimento na duração que pouco ou nada vemos hoje. E por isso Agamben chama a atenção para esse investimento na culpa que caracteriza o capitalismo em sua fase atual: adquirir um produto que dura, hoje, significa quase um crime, na medida em que o consumidor perde imediatamente o seu contato com o culto do consumo, que é a  principal exigência da religião do capital.

A mídia é parte fundamental nesse processo. Agamben coloca que "os dispositivos midiáticos têm como objetivo, precisamente, neutralizar esse poder profanatório da linguagem como meio puro, impedir que o mesmo abra a possibilidade de um novo uso, de uma nova experiência da palavra" (p. 76). Diz também que "os jogos televisivos de massa fazem parte de uma nova liturgia, e secularizam uma intenção inconscientemente religiosa" (p. 68). Esse culto do consumo e das imagens velozes da mídia guarda, inclusive, uma aparência de profanação, porque fica parecendo que essa troca incessante de objetos e de imagens, sem maiores aprofundamentos, significaria um desprendimento que seria inverso aos rigores religiosos. Agamben mostra que essa versão é um equívoco sutil, porque se não há duração, também não existe separação entre o sagrado e o profano, na medida em que o consumo já ganhou a forma do culto, em todos os seus aspectos.

Em seu Falatório de 2002, publicado em livro no ano de 2005, chamado "Psicanálise: Arreligião", o teórico da psicanálise brasileiro MD Magno já fazia essa ampliação da estrutura religiosa para outros campos, citando inclusive um autor chamado Carl Schmitt, que, já em 1922, num trabalho sugestivamente intitulado "Teologia Política", afirmava que "todos os conceitos expressivos da moderna doutrina do Estado são conceitos teológicos secularizados" (citado à pág. 26). Magno então destaca essa forma teológica, que seria, como de fato o é, presença garantida na estrutura de todos os campos de conhecimento humanos, como a filosofia, o direito, as ciências e até mesmo em boa parte dos setores da própria psicanálise (idem, p. 26).

A mensagem dos dois autores é clara: as doutrinas acabam sempre descambando para o culto. No fundo, o que ocorre é sempre um afastamento da percepção de que é possível jogar com o sentido, de que é possível dessacralizar a ideologia, para que novos usos sejam testados. E se a religião busca sempre sustentar um caráter sagrado para tal ou qual sentido, em detrimento da possibilidade de profanação, ou seja, em detrimento de um uso não-divinizado para ele (para o sentido), toda e qualquer ideologia acaba sendo em grande medida uma estrutura essencialmente litúrgica, porque o culto supera sempre o jogo. E como em religião se trata sempre de um fenômeno baseado na perversão do reconhecimento, ou seja, sentir-se pertencente a um grupo de iguais, há uma certeza empobrecedora que cerca a lógica toda. Um exemplo disso tive recentemente quando, num debate sobre a relação da economia com a mídia, o cara me pergunta o que eu faria para mudar as coisas. Respondi que uma possibilidade seria colocar um poeta para comentar as notícias da TV, ao invés de economistas. O cara rapidamente descartou a profanação, fisgado pela tendência ao culto que lhe acometia. Ou seja, o jogo interessava-lhe muito pouco, fisgado que estava pela liturgia econômica.

Enfim, não existe pensamento crítico, não existe reflexão, não existe postura analítica, maturidade, complexidade e/ou riqueza de perspectivas e possibilidades sem um exercício constante da profanação. Não tanto para restituir ao humano o que lhe foi tirado pelo divino, porque o religioso é, também ele, uma criação humana. Mas para deslocar as ideias de suas cercas religiosas, no sentido de repensá-las sempre em movimento, como se fossem - e são - quadros impressionistas, com traços sempre postados em constante choque e sem cortes definitivos. E por isso Agamben termina um de seus parágrafos afirmando que "fazer com que o jogo volte à sua vocação puramente profana é uma tarefa política" (p. 68).

Um ótimo livro, que o leitor deve ler com cuidado, porque a editora, Boitempo Editorial, o colocou numa coleção chamada "Marxismo e Literatura", uma espécie de culto que não comporta a amplitude da obra. Agamben não tem o menor cacoete de marxista, muito pelo contrário. Está mais para um adepto da 'diferocracia' defendida pelo Magno. Vale muito a pena a leitura.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Privataria Geral



Acabei de ler hoje a Privataria Tucana e cabem alguns breves comentários a respeito.

O livro é realmente uma compilação de escândalos, um atrás do outro. Mostra de forma muito bem documentada o enorme roubo ao patrimônio público que ocorreu no governo do FHC e do PSDB. Essa putada toda, incluindo o próprio FHC, o Serra, o tesoureiro de campanha Ricardo Sérgio de Oliveira e toda a corriola de seu partido e aliados (DEM, PMDB e cia ltda) desviaram dinheiro público pra financiar as privatizações, enviaram o dinheiro ilícito para os paraísos fiscais da América Central, usaram e abusaram de laranjas e enriqueceram com toda essa roubalheira. Já sabíamos da maioria das questões que o livro levanta, mas ele enriquece a compreensão através de vários documentos oficiais, que comprovam todos os crimes. Para além do roubo em si, há duas questões que podemos refletir em cima disso.

A primeira é a forma como o livro - e o que temos visto de lá pra cá - desenha as forças políticas no Brasil recente. O quadro é claro: de um lado, o PSDB, blindado pela revista Veja e pelos jornais O Globo e Folha de São Paulo - que pouco ou nada publicam que possa ferir a imagem de membros tucanos - , e o DEM; do outro, o PT, que hoje se articula com os segmentos evangélicos, o que inclui aí a rede Record, do bispo Macedo, além de ter como aliada (de menor peso) a revista Carta Capital, que acaba publicando os podres do PSDB, coisa que as outras não fazem. O livro também fala, de passagem, sobre crimes cometidos pelo PT, como o mensalão, e sobre as armadilhas internas do partido, que possui as suas corriolas, tanto quanto os outros. No meio desses dois grupos, projetos muito semelhantes de governo. E vou justificar essa última afirmação no segundo tópico (mesmo achando que ela é bem óbvia).

A segunda questão é uma pista das mais claras que o autor deixa no final, para quem sabe analisar as conjunturas sem paixão. Pouco antes de terminar o livro, Amaury Ribeiro Jr nos lembra dos vários presidentes neoliberais que a América Latina teve na década de 90 e que privatizaram tudo o que aparecia pela frente (até a água, no caso da Bolívia): Carlos Salinas, do México; Gonzalo Sánchez de Lozada, da Bolívia; Carlos Menen, da Argentina; e, óbvio, FHC, do Brasil - dentre outros. Entretanto, há um dado curioso. Tirando o México, que é quase um quintal dos EUA, todos os outros países citados, e mais alguns, estão há tempos resolvendo os problemas das privatizações da década de 90 da forma mais aberta possível: Chavez, na Venezuela, Cristina Kirchner, na Argentina, Evo Morales, na Bolívia, Rafael Correia, no Equador etc. Na verdade, menos o México e.. o Brasil. O Brasil, que é governado pelo PT há 9 anos, não estatizou de volta nenhuma das empresas privatizadas. Coisa que toda a América Latina parece já ter percebido ser a única solução viável para a melhoria das condições sociais de seus países. Inclusive, em alguns casos, como o do Equador, por exemplo, essas estatizações foram vitórias conseguidas na justiça internacional, tal o volume de crimes desse tipo que a década de 90 deixou para o início do século XXI. E no Brasil?..

Vale a pena ler a Privataria, para que se saiba o tipo de risco que é um governo do PSDB para o Brasil. Vale também para que as pessoas tenham mais dados para aprender a ler a grande mídia sem inocência, na medida em que o silêncio ou o escândalo dela é sempre parte do jogo e não vontade de informar os seus leitores com respeito e cuidado. Mas é bom ainda para perceber o quanto o PT não tem o menor projeto para mudar o quadro deixado pelos tucanos. Num pequeno debate hoje pela manhã ouvi de dois petistas que não se muda um país em dez anos. O pessoal da América Latina não parece acreditar muito nisso...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

hárima d'acoisa?

'Charge of the lancers' (1915)
Umberto Boccioni


A rima
vista de cima
não serve

como foto
grafia
da coisa
ali associada

transpõe-se armadilha
ao olhar

se o dito
remete à coisa
e nele hárima,

é por puro acaso
que acoisa
se mostra

o poema só es
capa
se por fresta qualquer,

desse entre-
meio
marítimo
que trans-
passa
o negrume das sombras

terceira margem
da vida que lastra

o brasileiro médio e a teoria



Um dado curioso - que não sei se é predicado apenas do mundo atual, ou se apenas do Brasil, ou mesmo se sempre existiu e eu não poderia saber - que percebo no indivíduo médio é uma aversão declarada a qualquer tipo de teoria. Um pragmático veria nisso uma qualidade positiva. Mas como não sou inocente como os pragmáticos, acho que isso é muito ruim. E tentarei justificar isso aqui.

O mais estranho nisso é que mesmo quando concorda com as premissas em jogo, a pessoa comum tende a desprezar o aporte de qualquer teoria. É bem fácil perceber isso no cotidiano. Um exemplo ocorre quando você cita um cenário qualquer que esteja enxergando, que o interlocutor concorda contigo. Por exemplo, você diz: "Ultimamente, as relações entre as pessoas estão muito supérfluas, ninguém quer nada sério, nem em amizade e nem em relações que envolvem a troca entre os sexos, namoro, casamento etc". A pessoa concorda na hora. Aí, você faz um complemento qualquer, ligado à teoria: "Inclusive, isso é parte do que o Bauman propõe como "modernidade líquida", que é um conceito dele". Pronto. Basta pra pessoa fazer cara feia, ou então dar aquele risinho de canto de boca, do tipo "lá vem esse papo chato"..

É a mesma coisa, só que um pouco mais elaborada, mais refletida. Mas parece que cada vez que você aprofunda um pouco, vira um pouco mais "criminoso". Inclusive, a escolha do nome deste blog (im-postura) tem um pouco a ver com isso, como sabem aqueles que leem os meus textos há mais tempo. Num mundo fanáticos por modismos e por simplismos, tentar refletir um pouco é quase um crime. E o pensador é sempre um impostor, que entra de penetra na festa.

O Glauber Rocha já dizia que o Brasil é a pátria do assassinato cultural. Antes dele ainda, Nelson Rodrigues alertava para o vira-lata que temos, todos, dentro de cada um de nós, tupiniquins. E esse lado aflora diariamente no cotidiano do cidadão médio, que não percebe duas coisas importantes. Primeira: humildade é sempre importante, para que se possa aprender mais. E segunda: quando uma pessoa aprofunda de verdade algum assunto, está tentando produzir alguma coisa que seja para além do que já sabemos. E isso merece, no mínimo, um pouco de respeito.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Produto Interno Bruto

"O Triunfo do Genius da Destruição" (1878)
Mihály Zichy


Produto Interno Bruto:
tudo aquilo
que vive abaixo do eu
em letargia profunda

tudo aquilo
que nada daquilo
me diz

que de lá espreita meus delírios,
como se nada
de fato
acontecesse

que brisa
enquanto daqui
vento

noves fora o lucro e a liquidez
de uma vida infame,
paródia que perturba o breve sono
da pré-história,

sobra a dívida
eterna
com o silêncio,

cujo valor
só se mede em versos,

câmbio poema,
que flutua em reverência


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Rimar ou não rimar, eis a questão

"Tempestade de Neve no Mar" (1842)
William Turner


Não quero me aprofundar demais, mas estive pensando sobre a questão da rima, especialmente no que diz respeito à poesia. Por algum motivo, ao tentar produzir um poema todo rimado, mesmo depois dele pronto, não gostei do resultado. O poema me pareceu excessivamente 'enquadrado' - não digo 'lógico' por que o Lacan e o Deleuze, dentre outros, já nos mostraram que a lógica não é exatamente algo da ordem do linear - e 'artificial', outra palavra que uso na falta de uma melhor.

Retomei aqui em casa alguns trechos de estética, para tentar refletir as causas desse sentimento de repulsa à rima. Nada muito aprofundado, como coloquei no início, apenas para entender o suficiente. E recorri, inicialmente, à noção de mimesis, para pensar sobre o problema da repetição.

Platão, como se sabe, não tinha os poetas em boa conta. Para ele, a arte não passava de imitação (mimesis) da criação do artífice, o artesão, que seria o único a poder criar de fato, na medida em que acrescentava detalhes à 'ideia geral' dos objetos. A ideia geral, por sua vez, possuía posição privilegiada, porque tinha o valor de situar uma unidade visível na multiplicidade. A ideia, então, para Platão, era transcendente ao conjunto do real (ao conjunto das ideias), enquanto a arte não passava de mera cópia do trabalho do artesão, que copiava a ideia geral, acrescentando-lhe detalhes próprios.

Me interessa especialmente a questão da ideia geral em relação àquilo que ela representa. Por que o Platão parece não considerar a ideia como cópia da realidade, mas sim ela-própria (a ideia) a realidade em si mesma. A existência se dava, para ele, fundamentalmente nessas unidades gerais, copiadas no âmbito dos artifícios humanos das ideias. A ideia geral, portanto, não repetiria o real, que na verdade começa com ela, e não antes dela. E o mesmo, em menor medida, parece ser o que acontece, para ele, no trabalho do artesão, que tenta repetir a ideia geral, sem entretanto conseguir.

O pessoal do Romantismo alemão, especialmente os primeiros românticos, os irmãos Schlegel e seus amigos (virada do século XVIII para o XIX), vão passar a ver a arte e a poesia de outra forma. Para eles, ela passa a ser O lugar por excelência do pensamento crítico e da possibilidade de reflexão sobre a realidade, na medida em que escapa dos limites excessivamente repetitivos do pensamento comum. O poeta passa a ter mais valor depois deles, disso não há dúvida.

Entretanto, uma questão me parece chave para cavucar esse tema: Qual é o objetivo maior do pensamento que chamamos de crítico e artístico (entendendo que a partir do Romantismo não é possível uma obra de arte não-crítica e um pensamento crítico que não seja uma obra, no sentido reflexivo da palavra)? Uma resposta possível: o pensamento crítico e a arte servem para deslocar a realidade de seu lugar passivo. Ou, mais ainda, servem para decompor a realidade em partes, na tentativa de superar a tendência cotidiana de se apegar à fantasias de apreensão vestidas com o manto sagrado da totalidade (ou seja, como se uma palavra ou ideia pudesse resumir determinada coisa de maneira absoluta). Em curtas palavras, pensar criticamente e fazer arte precisam ser, em suma, 'não repetir'.

Porém, algo ainda não me satisfez, porque não consigo deixar de perceber um detalhe fundamental nos trabalhos artísticos e críticos (mesmo nos anteriores ao Romantismo e que se encaixam nesse enquadramento). No fundo, as sombras do Barroco, as pinceladas fragmentadas e dinâmicas do Impressionismo, as imagens cruzadas do Surrealismo e os ângulos superpostos do Cubismo tinham um objetivo maior do que apenas decompor a realidade, para 'superá-la'. Esse tipo de produção aponta, na verdade, para o fato de que a realidade-ela-própria é algo da ordem do profundo-abissal, impossível de ser focado por completo e, mais ainda, impossível de ser superado. Ou seja, não se trata exatamente de superar a realidade, mas sim de transitar no não-aparente. Esse não-aparente, entretanto, não seria uma potência de aproximação com o futuro das coisas (que compareceriam na produção crítica do sujeito implicado no processo como instância criadora). Menos que isso (aquém), seria um exercício de parcialidade não-denotativa da realidade, que possui o viés de mostrar que a realidade-ela-mesma de uma coisa ou situação é composta por uma multiplicidade tão grande de nuances, detalhes, perspectivas, ângulos, cheiros, cores, sentidos e leituras que seria uma 'não-repetição' (!) de sua verdade defender a tese de uma ideia única para tal ou qual situação.

Ora, depois disso, passa a ficar mais claro meu desgosto com a rima. A estrutura da rima é uma forja de repetição que, no fundo, o que menos faz é repetir a realidade, que se configura sempre como algo da ordem do inapreensível. E nesse sentido, quando Borges nos diz que a memória é "esse quimérico museu de formas inconstantes" ('Elogio da Sombra', p. 26), ou quando Marco Lucchesi nos deixa que "as formas da beleza demoram no silêncio" ('Meridiano Celeste & Bestiário', p. 63), estão muito mais próximos dessa pele sem fundo da realidade do que Antonio Correia de Oliveira, quando este escreve os versos que seguem: "Benditos sejam os ramos / Da generosa beleza; / Nossa casa e nossa mesa / E dos filhos que criamos" ('Antologia de Poemas para a Juventude', p. 50). A multiplicidade do sentido aparece de forma muito mais exaltada nos primeiros versos, que são menos "arquitetônicos" e muito mais "oblíquos", se é que o leitor entende a diferença.

A rima, em suma, me parece um 'eu' excessivamente implicado na produção. E o 'eu', como se sabe, sabe bem pouco do que é a realidade...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os paraísos no meio do purgatório

Ilhas Jersey: um dos paraísos que dão as mãos ao purgatório...


Na leitura da Privataria, fico sabendo de algumas coisas que não sabia e que são bastante curiosas.

Uma delas tem a ver com os chamados "paraísos fiscais". A gente tem a ideia de que paraísos fiscais são países que apresentam atrativos para bandidos que desejam lavar o seu dinheiro sujo através de contas que eles chamam de offshores, abertas em bancos que seduzem esse tipo de cliente por que mantém sigilo sobre a identidade dos correntistas e as movimentações. Esse dado confere. Mas há detalhes que explicam muita coisa e que geralmente não aparecem no nosso entendimento comum.

Um deles diz respeito à forma como o dinheiro é lavado. Para dificultar qualquer tipo de investigação futura, o dinheiro sujo passa por diversos bancos antes de "atracar" nas tais offshores. Ele viaja por vários bancos, às vezes de vários países diferentes, antes de chegar ao destino "paradisíaco". O mais curioso - e revelador - disso tudo é que existem bancos que sustentam esse sigilo em países que em tese não seguem a lógica do sigilo. O livro cita, apenas para efeito de exemplo, um banco suíço chamado USB, que fica no estado do Delaware, nos EUA (p. 131), e uma agência do MTB Bank no Uruguai (p. 134), como destinos temporários das fortunas do crime organizado, inclusive dos que desviam dinheiro público. E cita ainda um outro banco, o Deustche Morgan Bank, de propriedade do Deustch Bank, que fica nas Ilhas Jersey (p. 135). As Ilhas Jersey são um paraíso fiscal declarado. Só que pertencem à Inglaterra, que não é declaradamente um paraíso fiscal e participa dos acordos internacionais de combate aos crimes econômicos. Ora, venhamos e convenhamos...

Quer dizer: Ao contrário do que parece, existem países que são paraísos fiscais, mas existem também entidades bancárias que seguem a mesma lógica dos paraísos fiscais em países que em tese agiriam diferente. Não ficaria mais fácil eliminar esses intermediários? E mais: ao invés de ficar fazendo embargo à Cuba, que é um país honesto, porque não fazer embargo a esses paraísos fiscais, para tentar combater o seu poder de sustentar o crime organizado? São perguntas cuja resposta é óbvia, dado o fato de que muito do dinheiro que sustenta o poder dessas nações vem desses bancos. Difícil esperar alguma mudança dessa forma...

estupro(ema)

"Companheiros de Medo" (1942)
René Magritte


o poema sanciona
o bailar do esboço

pincel de sombra
a profanar instantes

declínio arfante,
eterna curva,
lapidar de pequenas glórias solitárias

o poema violenta a folha,
mas deixa de herança
uma breve ironia,

retroalimento
da matéria branca

quarta-feira, 25 de abril de 2012

o que há por baixo do asfalto?

"Filósofo com o Livro Aberto" (1648)
Rembrandt


vertigem
clan
destina
e oblíqua

que passa eterna,
como quadro em branco,
rasante e virgem,
por trás da tinta dos dias,
de seus traços,
cores e miragens diversas

a pele da alma
é um espelho de dois lados
e na metade de dentro
(haverá uma de fora?)
não cabem olhos

é preciso ver
através do sopro
que apaga a vela

O gênio, ontem e hoje

"O Cavalo Branco" (1635)
Diego Velázquez


Acabo de ler o primeiro ensaio do livro "Profanações", do filósofo italiano Giorgio Agamben. Pra resumir: Excelente! Belo texto, crítico e muito bem escrito. Fala sobre a expressão "Genius". Entretanto, não vou usar esse texto pra fazer um resumo do ensaio do Agamben, mas sim para testar mais uma reflexão, como de praxe. Quem me conhece pessoalmente e já assistiu aulas minhas, sabe que trato constantemente do tema. Mas o texto do Agamben suscitou-me novos detalhes e vou tentar desenvolver rapidamente aqui.

A questão é que virou moda, nos últimos tempos, atribuir o adjetivo de "gênio" a certas figuras que são, no mínimo, suspeitas: Eike Batista, Steve Jobs, Luciano Huck, Ronaldinho "fenômeno" etc etc. São aquilo que o Debord chamava de "vedetes" da mídia, pessoas que ganham renome exclusivamente pelo sucesso financeiro, sucesso esse que empurra pra debaixo do tapete qualquer falha moral ou déficit intelectual de suas façanhas. E empurra pra lá porque estamos num mundo excessivamente pragmático, que valoriza demais o dinheiro, o que acaba cegando a maioria das pessoas sobre qualquer outro valor nas coisas que não seja o retorno financeiro. Se o cara é um estúpido, mas ganha muito dinheiro, então é um "gênio". Se o cara é um bandido, ou um malandro, mas ganha muita grana, é outro "gênio". E por aí vai.

Talvez por minha ligação com a arte literária e com a filosofia, aprendi a ter muito cuidado com certas palavras. É preciso estudá-las sempre, pra saber como nasceram, que sentido tinham anteriormente, quais foram as apropriações que foram feitas em sua história, que sinônimos foram acrescentados e quais foram retirados do uso etc. Sempre dou o exemplo da palavra "obeso", que nasceu para designar pessoas magras e, com o tempo, provavelmente por algum uso irônico, virou o inverso, ou seja, sinônimo de pessoas gordas. A palavra "arte" também já mudou muito, de "técnica", para os gregos, para "reflexão", depois dos românticos alemães e especialmente depois das vanguardas do século XX. Hoje, 'arte' virou apelido de qualquer coisa, na mídia e no senso comum. E isso é uma das coisas que me deixa chateado nesse tipo de assunto, porque eu vejo certas palavras como entes que merecem um respeito especial, como se tivessem simplesmente o mérito de terem aparecido, nesse mar de verbetes comuns que é a vida humana. É o caso da palavra 'arte', da palavra 'política' e da palavra 'gênio'. É como se fosse um crime usá-las de qualquer jeito.

Mas voltemos ao lance dos "gênios". Ao iniciar sua reflexão, Agamben chama a atenção para o fato de que a etimologia da palavra "genius" leva a uma aproximação entre as palavras "gênio" e "gerar" (p. 15). E daí, temos várias palavras que mostram isso, como "genial", que significa algo que surge ali, naquele momento. Ou, inversamente, "ingênuo", que denota aquele que não percebe quando algo "surge" (claro, a palavra "ingênuo" foi ganhando novos sinônimos e hoje significa, ao menos no Brasil, uma inocência mais ampla). Enfim, "gênio" parece ser mesmo uma palavra ligada ao tema da singularidade, ou seja, daquilo que supera o simples, o repetitivo e o pessoal.

Vamos plainar rapidamente para outro livro, que li em janeiro, e que pode dar mais pistas. Depois retornamos ao ensaio do Agamben. Trata-se de um ótimo trabalho de um autor chamado Pedro Duarte, cujo título é "Estio do Tempo: Romantismo e estética moderna". Em um dos capítulos, ele reflete sobre o conceito de gênio e, ao falar sobre os primeiros românticos alemães, coloca que "em suma, o pré-romantismo faz do gênio a arma de sua luta contra as regras, na estética e na sociedade" (p. 72). E então, completando o parágrafo com duas palavras que resumem a genialidade, ou seja, "singularidade e originalidade", o autor nos traz mais uma palavra que tem ligação com a etimologia de 'genius': "genuíno". Quando falamos que algo é 'genuíno', é porque esse algo tem a aparência de algo "puro", ou seja, "autêntico". Talvez o sentido seja até mesmo exagerado, porque é difícil conceber algo que tenha surgido do nada, sem a menor articulação com algo anterior; mas é possível perceber que "genuíno" tem a ver com algo que não repete outra articulação anterior, e que portanto apresenta algo de efetivamente singular.

Na esteira disso, há um aspecto fundamental, que nos mostra direitinho que tipo de mudança ocorre da forma como o Romantismo pensava o gênio para a maneira como a palavra passou a ser usada na retórica midiática e no senso comum. E comecemos por mais uma citação de Pedro Duarte: "O primeiro romantismo alemão não concede à espontaneidade natural do sujeito o privilégio exclusivo da criação, enfatizando que esta precisa aliar-se à cultura e ao que ela já produziu" (p. 77). Ele acrescenta que a criação do gênio "não é fruto seu, e sim da genialidade, que não lhe pertence" (p. 78), "pois a condição de possibilidade para que a obra nasça é que o artista dê lugar para seu gênio e não para si" (p. 78). E então conclui que "o gênio romântico moderno, por sua vez, precisa agir e observar sua ação ao mesmo tempo, criar e pensar sua criação simultaneamente" (p. 84). Esse final tem a ver com a mescla entre poesia e reflexão, entre arte e crítica, que se faz na Alemanha do final do século XVIII e início do XIX, através do pensamento de autores como Kant, Hegel, Hölderlin, Novalis e os irmãos Schlegel, dentre outros. E essa mescla se dava não só na forma de enxergar a obra de arte, mas na maneira como se via a própria vida. É exatamente daí que avança a ideia da emancipação intelectual, do sujeito que se coloca diante do objeto que pensa, enfim, disso que hoje chamamos de 'reflexão' e 'pensamento crítico'.

Voltando ao Agamben, ao refletir o que li, cheguei à conclusão de que o posicionamento dele é nitidamente crítico, porque, ao longo de sua exposição, ele tenta situar a 'singularidade' de uma forma bem mais ampla que apenas o "eu" ou o "corpo individual", como fazem certas psicologias pretensamente contemporâneas e, de forma mais rasteira ainda, a própria mídia e o senso comum. O autor afirma que "compreender a concepção de homem implícita em Genius equivale a compreender que o homem não é apenas Eu e consciência individual, mas que, desde o nascimento até à morte, ele convive com um elemento impessoal e pré-individual" (p. 16). Em todo o ensaio, se percebe o cuidado do pensador italiano para demonstrar que o 'Genius' seria essa sombra que carregamos e que nos impossibilita de ter como garantia qualquer personificação e qualquer repetição. O que temos de "genial" é justamente essa parte clandestina e silenciosa (p. 20), que conspira constantemente contra nosso tesão eterno pelas inúmeras mimesis da história e da nossa própria psiquê.

E então retornamos às vedetes midiáticas. Que repetem tendências; que personificam as suas composições ao máximo, ao ponto de geralmente serem consideradas mais importantes do que aquilo que produzem; que estão muito mais preocupadas em vender do que em criar; enfim, que não fazem nada de efetivamente 'genuíno'. Em mais um dos muitos mitos da banalidade, há aquele tipo de gente que diz que "a vida é simples, os outros é que gostam de complicar". Como acho isso uma grande besteira, costumo preferir as reflexões mais elaboradas, como a dos românticos alemães e do Agamben. O que me permite dizer que, pra mim, de 'gênio', as vedetes da mídia não têm absolutamente nada...

domingo, 22 de abril de 2012

'Vender tudo', o lema dos piratas da política



Comecei a ler o "Privataria Tucana". Aos amigos que me conhecem, um aviso para tranquilizá-los: Isso não significa, claro, que virei petista. Muito pelo contrário. Estou lendo o livro para entender como começou o processo das privatizações das empresas públicas brasileiras, que continuam sendo negociadas pelo governo do PT, agora sob o malandro disfarce da terceirização.

Enfim, o início do livro (só li os três primeiros capítulos) já é bem nojento e começa a esmiuçar a história através de um enquadramento mais geral. E há um trecho que cita uma frase do FHC, de 1995, portanto no início do processo, e que destaca de forma bem clara o que move a cabeça dessa gente neoliberal de carteirinha. Desculpem se acabaram de jantar agora, mas aí vai:

"- É preciso dizer sempre e em todo lugar que este governo não retarda privatização, não é contra nenhuma privatização e vai vender tudo o que der pra vender" (p. 36).

Precisa dizer mais alguma coisa?

O curioso é que isso me fez achar o PT ainda pior do que o PSDB. E por quê? Porque os tucanos ao menos são canalhas assumidos. O PT forja uma postura diferente, mas no fundo faz o mesmo. Está continuando a acabar com a soberania nacional, através de um processo que negou nas suas três campanhas.

É como dizia o mestre Darcy Ribeiro: é a "esquerda" que a direita gosta. Aliás, essa frase, pra quem gosta de estudar teoria, é um tapa na cara de toda a esquerda marxista da segunda metade do século XX, que acredita, ainda hoje, que a verdadeira revolução se encontra na posição de "proletário". O Darcy era mais esperto.

Vou continuar a leitura e vou trocando as minhas impressões com os amigos leitores, como sempre faço.

sábado, 21 de abril de 2012

Lacan, Marx e uma pequena pista



Quando você aprende a ler teoria de uma forma madura, percebe alguns detalhes importantes. Um deles é o fato de que os conceitos não são construtos indestrutíveis e completos em si mesmos e que eles exigem uma coisa que pouca gente coloca em prática, para se legitimarem enquanto processo: a mentalidade crítica. Talvez seja essa a principal diferença entre os discursos do universitário e o do mestre, que são separados de uma forma crítica pelo Lacan, no decorrer de sua obra e de suas reflexões. O discurso universitário se contenta com a repetição pretensamente objetiva dos conceitos, como se eles fizessem sentido por e em si mesmos; enquanto isso, o discurso do mestre é sempre um em-curso, que se implica na reflexão, no que busca exemplos e casos que se articulem com a ideia geral, no intuito de manter movimento ao pensamento (movimento esse que é o tempo todo estuprado pelo fetiche da citação, tão caro aos universitários.

Há que se dizer que, de uns tempos pra cá, uma parcela grande dos ditos universitários vem usando só a parte da implicação nas leituras, o que desemboca, em muitos casos, na chamada "ditadura da hermenêutica", que é denunciada em um ótimo trabalho do filósofo alemão Hans Gumbrecht, chamado "Produção de Presença". Ou seja, a denúncia é a de que tem muita gente por aí achando que 'opinião' e 'subjetividade' são garantias de reflexão crítica. Não são. É preciso uma articulação com a ideia geral, ou a pretensão de reflexão não vai passar de mera crônica.

Enfim, o texto que quero arriscar aqui não tem a pretensão de descrever os conceitos mais conhecidos do Lacan, mas sim seguir uma ou duas pistas que dançam em um trecho do livro que acabo de ler, e que já citei no texto anterior: "Estou falando com as paredes". Trata-se de uma pista sobre o capitalismo.

Lacan coloca que não teríamos a menor ideia do que é o capitalismo se o "Marx não se houvesse empenhado em contemplá-lo, em lhe dar seu sujeito, o proletário, graças a quê o discurso do capitalismo propagou-se por todas as regiões em que impera a forma do Estado marxista" (p. 88). Vale esclarecer que o texto é de 1972, portanto ainda bem antes do fim da URSS.

Quando li isso, exclamei um "Claro! Como não pensei nisso antes?". E na verdade, até pensei, porque quem me conhece sabe que não pactuo com essas definições apressadas, como por exemplo a de "classe", que divide o mundo em ricos e pobres, como se os pobres fossem as grandes vítimas e os ricos os grandes algozes. Se nos permitimos a licença de imaginar um algoz, este teria que ser, então, a riqueza monetária (ou econômica ou financeira, ou qualquer apelido do tipo), enquanto sustentáculo da desigualdade de dinheiro. E aí temos que um pobre que quer ser rico é tão algoz quanto um rico. Parágrafo.

Mas a questão que me surgiu inusitada foi algo que alguns autores já tinham percebido de raspão, como o próprio Debord e o seu biógrafo crítico, Anselm Jappe: o fato de que, ao usar e abusar da linguagem econômica e da noção de trabalho como referente maior, o próprio Marx acabou construindo uma sustentação fortíssima para o capitalismo, na medida em que, como sugere o Lacan, transformou o proletário em sujeito, quando na verdade, ele não passa de mais uma engrenagem ideológica da peça histórica - e histérica - que chamamos de capitalismo. A novidade não está na descoberta de que o trabalho não pode ser o referente maior, porque muita gente já sacou isso antes. O novo se encontra em perceber que as teses do Marx - e as marxistas de tabela - são, talvez, a cola mais resistente da aderência do capitalismo na esteira da história. Por que são elas que impedem de perceber que não há transposição possível para a homogeneização simbólica do reino do capital. Por que são elas, enfim, que impedem que se perceba que a verdade não está no "trabalhador", mas sim na emancipação intelectual, que te permite decompor a mitologia da riqueza econômica, para chegar a um "mais-que-gozar" que permita superar as bases do sistema, para que se tente voos mais amplos.

Talvez por isso casos como o da própria URSS e da China, que, depois de experimentarem experiências semi-marxistas, chegaram a um ponto em que a única saída era aderir ao capitalismo mais rasteiro. O Marx talvez se espantasse com isso, na medida em que preconizava que o socialismo e o comunismo seriam cortes inevitáveis, em síntese (portanto obrigatoriamente posteriores) ao capitalismo. Como ainda não descobriram uma maneira de voltar no tempo (pelo menos não no que tange aos corpos grandes, porque a gangorra do recalque tio Freud já demonstrou), tudo indica que ele estava errado nessa.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O prazer e o desconforto



"O princípio do prazer nada tem a ver com o hedonismo" (p. 28), é o que afirma Lacan neste pequeno livro que estou lendo agora e que tem o sugestivo nome de "Estou falando com as paredes". O texto narra alguns encontros que o teórico da psicanálise teve com os internos de psiquiatria do Hospital Sainte-Anne, no final de 1971, dez anos antes de sua morte. O tema dos encontros era "O saber do psicanalista". Em linhas gerais, o objetivo era pensar na especificidade da psicanálise, em sua relação com o saber, e tentar estabelecer um contra-ponto para os alunos do Lacan, que enveredavam, naquela época, por uma defesa crescente do "não saber" (que, como veremos nas décadas seguintes, tornar-se-ia uma tendência cada vez mais amplificada - hoje, uma dessas bandeiras é a do 'saber popular', que seria, para seus defensores mais inocentes, um saber que prescindiria totalmente do saber teórico, contemplativo e reflexivo - o próprio Lacan já sacava isso, quando dizia que "hoje, o não saber é chique" (p. 17)).

Em mais um trecho, o pensador francês esclarece outro ponto importante: "O princípio do prazer é uma referência da moral antiga. Na moral antiga, o prazer, que consiste principalmente em fazer o mínimo possível, (...) é uma ascese" (p. 27), ou seja, o "sumo refinamento da moral do senhor" (p. 28). Para quem não conhece a palavra, uma ascese é um exercício prático que leva à efetiva realização da virtude. O que Lacan chama a atenção aqui é para o fato de que, antigamente, a realização efetiva do prazer como virtude aparecia na moral do mínimo esforço.

Geralmente, se confunde prazer com gozo, no senso comum. E a articulação desses dois trechos visa, dentre outras coisas, repensar esse mito. Ora, se o prazer reside na lógica do menor esforço, então o gozo não é da ordem do prazer. O prazer residiria numa lógica que fosse a mais estanque possível, a mais próxima do repouso que se pudesse atingir. Isso se seguirmos a pista de que o prazer nada tem a ver com o hedonismo.

A partir daí, vale perguntar, onde fica o saber da psicanálise nisso tudo? Lacan cutuca os alunos apressados quando declara que "o saber não-sabido de que se trata na psicanálise é um saber que efetivamente se articula, que é estruturado como uma linguagem" (p. 23). E coloca que, "se o inconsciente é algo de surpreendente é porque esse saber é outra coisa [que não as conveniências animais]".

E então, lendo a orelha de "Nove ensaios dantescos & a memória de Shakespeare", livro de contos-ensaios de Borges que comecei a ler mais cedo, deparo-me com mais uma pista. Falando sobre os textos, a orelha nos diz que eles trarão "prazer e desconforto" para o leitor. A referência é à sofisticação dos textos do escritor argentino, que são por demais notórias para que eu perca tempo exaltando-as. De qualquer forma, há que se pensar, refletindo os apontamentos do Lacan, se é possível ler um autor como o Borges a partir da lógica do prazer. E mais: se o deleite da leitura nos leva aos cumes do desconforto, mesmo que em forma de fruição, o quanto isso não representa de denúncia do fato de que a arte - e a própria psicanálise, enquanto campo que navega nas articulações que escapam do impossível - é sempre uma possibilidade a mais de se superar a animalidade que nos resta orgânica e, na esteira disso, a própria lógica do mínimo esforço, que nos empurra, constantemente, para a passividade mais deslavada?

Por essas e outras, o prazer me interessa tão pouco. E cuidado para que o menor esforço não o faça precipitar-se na interpretação...

sábado, 14 de abril de 2012

invento

"Homenagem à Goya" (1885)
Odilon Redon


invento
a noite perdida
o futuro que não veio
e o passado que pressiona
as veias abertas do presente

invento valores
sinos escambos
e pequenas dores

invento viagens
por delírios férreos
e estradas sem fundo

invento passagens
invento bobagens
nada que se preste a porto

invento mares
que bebem o mundo -
ondas bêbadas -
e o galope da espada
a cortar cenários,
marionete da memória

invento..
ou pelo menos tento

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Adivinhe: Qual é a diferença entre um trem e o congresso?



Há muito tempo não pegava o trem aqui do Rio de Janeiro e hoje tive que pegar, por conta de uma reunião do trabalho. E então, tive duas surpresas, uma negativa e outra positiva.

A surpresa ruim talvez nem possa ser considerada algo 'surpreendente'. Os trens são caóticos. Balançam demais, são muito quentes e o desenrolar do caminho é problemático. Com o tipo de governo que temos por aqui, e com o tipo de histórico geopolítico que a cidade tem, não dava mesmo pra esperar algo diferente.

Porém, algo se salva. Uma surpresa agradável, pelo menos. Observei, num dos cantos do vagão onde estava, uma pequena placa, que dizia mais ou menos o seguinte: "O Ministério Público, através da portaria de número 'tal', proíbe qualquer manifestação religiosa no interior dos trens. Qualquer tentativa sofrerá resposta coercitiva (algo assim)".

E então pensei, cá com meus botões: ora, se um lugar precário como os trens recebe esse belo presente republicano que é o respeito ao espaço e ao ouvido alheio, porque cargas d'água não acontece o mesmo com o Congresso e as demais instâncias políticas? Ou mesmo - e especialmente - com as escolas? A dúvida me parece válida diante dos últimos acontecimentos ligados a esse tema, como a cantoria religiosa no congresso e a perigosa articulação recente entre a religião e a educação, encabeçada pela tal "bancada evangélica" (só a existência dessa expressão já é muito ruim, mas enfim..).

O Ministério Público parece ser uma instituição válida no sentido de lutar para que essas coisas não aconteçam mais. Se conseguimos evoluir um pouco nos trens, o que impede que isso aconteça no congresso e na educação? É preciso continuar a debater esse tema, até que esse equívoco seja ultrapassado. Um pouco de inteligência não faz mal a ninguém.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

presente

"No Limiar da Eternidade" (1890)
Vincent van Gogh


o passado insiste
mesmo que o presente insista
em fingir que ele não existe

o único que experimenta
o presente absoluto
é o defunto

projeto de lembrança
que em breve se retorce
nas novas distorções da matéria

o presente é uma vírgula
inútil

terça-feira, 10 de abril de 2012

Impasses entre o rigor e a singularidade

"Montanha de Sainte-Victoire" (1902-1904)
Paul Cezanne


Estou acabando de ler um pequeno livro sobre a história do movimento Impressionista na França do final do século XIX e início do XX. Chama-se "O Impressionismo" e foi escrito por Maurice Serullaz. Como é uma história muito interessante, pelo valor histórico do movimento (a orelha coloca muito bem que o Impressionismo foi "um divisor de águas entre a arte clássica e a arte moderna, a ponte, o elo, a ligação que permitiu justamente a ruptura"), vale escrever um pouco sobre uma reflexão que a leitura me suscitou.

Camille Pissarro (1830-1903) foi um dos pintores mais ativos dentro do movimento, que teve grandes nomes como Monet, Renoir e Cezanne em seu desenrolar. E Pissarro teve um momento de dúvida em relação às premissas do Impressionismo, que o motivaram a aderir momentaneamente ao movimento chamado de Neo-Impressionismo, que visava fazer uma evolução do Impressionismo, "mas baseada num sistema científico e racional" (p. 67). Essa conversão se dá no ano de 1886.

Entretanto, entre 1888 e 1890, Pissarro abandona o Neo-Impressionismo, alegando que o processo de produção das obras era muito lento, o que feria o seu entendimento sobre a arte, que devia seguir mais as sensações do que uma sistematização mais rigorosa. Numa carta a um amigo, ele desabafa: "Após muitos esforços, tendo constatado (falo por mim próprio) a impossibilidade de seguir as minhas sensações, por conseguinte de dar o movimento, a impossibilidade de acompanhar os efeitos tão fugazes e tão admiráveis da natureza, a impossibilidade de dar um caráter particular ao meu desenho, tive de renunciar a tudo isso. Não era sem tempo, e devo acreditar, felizmente, não fui feito par essa arte que me dá a sensação de um nivelamento da morte!" (p. 68).

Antes de concluir o meu raciocínio, vale um esclarecimento para quem não conhece os detalhes do movimento. O que caracterizava, de maneira geral, o Impressionismo era o uso da pincelada fragmentada, que visava gerar o efeito de movimento na tela, em consonância com a realidade, que não pára (e em oposição à figura do 'traço', constante anterior); o uso predominante de cores claras, em nítida oposição aos tons sombrios do Barroco e de pintores anteriores, como Rubens, Caravaggio e Turner (dentre outros); e o ato de pintar ao ar livre, que para os impressionistas era fundamental, na medida em que o ateliê aparecia, para eles, como um afastamento da "vida real". Isso denota, inclusive, um certo naturalismo do grupo.

Pois bem, minha questão é a seguinte. O impasse de Pissarro é perfeitamente plausível, se pensamos que ele expõe o seu conflito numa época que fazia uma curva nítida em direção à modernidade mais ampla do século XX. O 'clássico' dava seus últimos suspiros, enquanto que a ideia da inovação e da necessidade de uma implicação do singular (e portanto do individual, do autoral) em tudo começava a ganhar força incessante. O próprio Cezanne vai tentar fazer uma mescla entre o clássico e o impressionismo no final de sua vida, impulsionado pela convicção de que o importante era fazer uma síntese entre os dois, unindo a singularidade ao rigor. Talvez fosse o mais certo deles todos.

Ora, estamos falando de uma lógica que perpassa todo o grande pensamento do século XX, ou seja, a da angústia de ter de relacionar os saberes adicionados pela história aos novos. E então podemos concluir que o fugaz pode ser completamente desprovido de expressão intelectual, da mesma forma que o elaborado pode não conseguir dizer nada sobre a vida em sua fugacidade e movimento. Havia um certo rigor no Impressionismo, que se vê especialmente em seu uso constante da pincelada fragmentada. Acho, por outro lado, que a crítica que Monet e Renoir fizeram dos tons sombrios os afastou da potência crítica e afeita ao singular que reside nas sombras, captada, por exemplo, por Jorge Luis Borges, quando este escreve, já no século XX, o seu belo livro de poemas intitulado "Elogio das Sombras". Cezanne percebeu isso e tentou fazer uso conjunto dos dois, ou seja, dos fragmentos e de um certo tom sombrio, produzindo a síntese entre os dois.

Enfim, é por essas, e por outras mais, que eu hoje cada vez mais me convenço de que a ideia do corte (que é a que moveu todos esses movimentos, especialmente o Impressionismo) migrou das escolas e grupos para a noção de 'obra'. Hoje algo, para ganhar o rótulo de arte, deve conter uma síntese entre algum tipo de rigor e uma singularidade qualquer. A questão é que essa singularidade não pode se repetir na obra seguinte, sob pena de assassinar as duas em sua contemporaneidade. O que torna a pretensão de ser artista (de verdade) cada vez mais complicada. Eu vejo isso com bons olhos, porque se nivela a produção por cima. É como disse o poeta Rainer Maria Rilke, em uma de suas 'Cartas a um Jovem Poeta': "O fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la". Assino embaixo.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

entre a letra e o que (s'ó)bra

"Os Álamos" (1879-1882)
Paul Cézanne


so
letrar
não basta

é preciso a pasta
que esboçanova
o que jaz em coma
no que geral
mente se vê

há algo mais
que a letra

e algo menos
que o indizível

o poema que se vire
para ver o inverso
na tinta da vida que es
corre

domingo, 8 de abril de 2012

é quase tanto isso

"O Sena em Argentieul" (1873)
Pierre-Auguste Renoir


Nas rugas da cena,
fetos tremem
em erosão

algo adere
algo escapa
muito se perde
e o pouco que fica
não serve

mesmo que dele
se fale
por anos
e eras

a cena é sem tampa,
sem beira,
sem fundo

é quase isso

o relógio marca
alguns tropeços de nostalgia

e quanto vale exatamente um dia?

essa frase cheira?
ouve?
canta?

o poema sobra
não conta pernas
não sabe a hora

formou-se em perder-se afora

sábado, 7 de abril de 2012

A leitura de qualidade no mundo de hoje (se é que ela existe...)



O 'Prosa e Verso' de hoje traz uma pesquisa sobre a questão da leitura no Brasil. O trabalho se chama "Retratos da Leitura no Brasil" e foi realizado pelo Instituto Pró-Livro. Está em sua terceira edição e vale trazer alguns comentários críticos sobre certos aspectos que me parecem importantes.

Vamos primeiro aos dados claros, ou seja, aqueles que representam de forma mais simples aquilo que assinalam.

Segundo a pesquisa, 85% dos entrevistados não compraram nenhum livro nos últimos 3 meses (em números gerais, 150,5 milhões de pessoas). 73% não usam nunca as bibliotecas do país, enquanto apenas 10% usam frequentemente. E a média de livros lidos por ano caiu, da última pesquisa, realizada em 2007, para esta de agora, que possui dados de 2011: entre os estudantes de maneira geral, o número de livros lidos por ano, que era de 7,2, caiu para 6,2; e entre os não-estudantes, caiu de 3,4 para apenas 2,3 livros por ano. Os alunos do ensino médio liam 4,5 e agora leem 3,9; e os do ensino superior, que chegavam a 8,3, desceram para 7,7.

Esses dados mostram algumas coisas que são mais do que apenas numéricas. Por exemplo: o cada vez menor uso das bibliotecas me parece ter relação com o uso da internet, na medida em que grande parte das pesquisas feitas nas bibliotecas podem, hoje, ser feitas na rede. A qualidade é sem dúvida menor na internet, mas a facilidade da pesquisa on-line justifica o abandono das bibliotecas. Essa também pode ser a justificativa para a diminuição gradual de leitura entre os estudantes. O que não apaga o fato de que esses dados são alarmantes, especialmente no caso do ensino médio, onde os alunos não chegam nem a 4 livros lidos por ano, um número muito ruim.

De outro lado, há alguns dados que não são tão simples, e que pedem atenção crítica redobrada, porque podem ser pistas de realidades mais sutis. Vamos a elas.

A pesquisa diz que 88% responderam que acham a leitura algo muito importante. Entretanto, 55% dos entrevistados dizem não conhecer ninguém que tenha "vencido na vida" por ler. A reportagem comenta: "A 'ponte' entre formação profissional, sucesso, 'vencer na vida' e leitura se perde na prática". Há dois problemas com esse comentário, que podem, inclusive, explicar parte da contradição apontada pela associação dos dois dados, na própria pesquisa. Claramente, não só as massas, mas a própria reportagem, associam "vencer na vida" a questões meramente profissionais e financeiras. O que nos empurra para aquele que talvez seja o dado oculto mais relevante de todos: as pessoas entendem e avaliam a leitura a partir de elementos meramente utilitários, desconsiderando o imenso oceano de influências cruzadas e intangíveis que se formam através da leitura de qualidade. Ora, "vencer na vida" é um parâmetro extremamente problemático, por dois motivos: primeiro, porque vem recheado de subjetividade; e segundo porque, como sabemos, as subjetividades seguem tendências. A tendência atual, influenciada pela retórica de mercado, é, de fato, altamente utilitarista. O que torna os traços da pesquisa, ao menos nesses quesitos, muito mais complexos do que aparentam. Se considerarmos que a maioria entende, realmente, que "vencer na vida" é apenas "ganhar dinheiro" e "ser um profissional bem remunerado e conhecido", é claro que isso não tem relação direta necessária com a leitura de qualidade. A reportagem tenta explicar essa distorção, alegando que, "neste caso, os entrevistados igualam leitura apenas com "leitura literária" e não consideram as leituras técnicas e científicas, por exemplo". Discordo. O que me parece é o contrário, ou seja, o que as pessoas comuns parecem acreditar é que a leitura ou é prazer, ou então é algo "técnico" (e nessa categoria, "técnico", estou incluindo todos aqueles que leem livros como os de auto-ajuda, procurando, por exemplo, soluções simples para os problemas de sua vida). Nitidamente, não buscam no livro uma interação "literária", mas sim utilitária. Na verdade, um misto de 'utilidade' com 'lazer'. O que mostra que alguns detalhes jamais aparecem nos números, mas somente na reflexão.

E há um outro aspecto que me interessa: os autores mais admirados. Segundo a pesquisa, esses autores aparecem nos grupos de maior influência: "a escola, a religião e a imprensa (escrita e televisão)". Em resumo, o que os dados mostram é que as pessoas leem, de maneira geral, influenciados pelas exigências da escola ou pelas influências da religião e da mídia. E então, cabe a reflexão. Os livros religiosos, em sua grande maioria, não são livros "literários", ou sequer de qualidade relativa. Exprimem não mais do que os preconceitos específicos de cada religião e apenas repetem os dogmas e crenças, através de histórias recheadas de moral duvidosa e com qualidade estética inferior. E os livros relacionados à mídia são os tais "best-sellers", que são feitos quase sempre com a intenção de vender, o que limita a complexidade do enredo e leva aos leitores apenas uma enorme quantidade de lugares-comuns e de narrativas pobres, que não contribuem em nada para aumentar o repertório de quem está em contato com o livro. Os autores mais vendidos dos últimos meses mostram direitinho esse quadro: padre Marcelo Rossi, Eike Batista, Steve Jobs, Nicholas Sparks, Boni... nenhum desses com a menor ligação com qualquer coisa que possa chegar perto disso que chamamos de "literatura de qualidade".

Esse tipo de livro, seja o religioso, seja os best-sellers, atrai, na verdade, o que os leitores têm de mais simplório, que é a necessidade humana de se agarrar aos ensinamentos de alguém determinado, independente da qualidade dos mesmos, para sentir um pouco de segurança diante da vida e de sua complexidade. Com esses livros, não é possível instigar nas pessoas a sua veia crítica, reflexiva, ou mesmo a veia artística, que levam sempre a pensamentos maiores e à descoberta da profundidade da vida e de suas nuanças ilimitadas. O único lugar que ainda resiste a influenciar dessa maneira é a escola. Mas, como sabemos que o projeto neoliberal é sucatear a educação, e como percebemos, nós que estudamos a questão da pedagogia em sua complexidade, que a retórica da subjetividade do aluno está vencendo os embates ideológicos deste início de século XXI, o que parece é que o futuro da leitura parece ser cada vez mais tenebroso. Quem estuda linguística e semiologia a fundo sabe que dizer que um mundo sem literatura de qualidade é um mundo que copula diariamente com a barbárie não é mero moralismo barato. É uma constatação das mais dramáticas. E, ao que parece, uma realidade cada vez mais próxima...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Contra o monopólio? O globo é contra..



Como tenho dito, sempre que leio um ou outro trecho perdido do jornalismo padrão tipo globo e cia, me convenço das grandes doses de infantilismo da nossa época. Não tanto pelas notícias veiculadas, porque acho que em parte o Adorno estava certo e os discursos são realmente elaborados de cima. O que mais impressiona é que muitas vezes os jornais tratam os leitores como estúpidos completos e, mesmo assim, não perdem audiência.

Hoje de manhã, colocando jornal para o cocô dos bichanos, dei de cara com um editorial do globo. O jornal é do dia 21 de janeiro desse ano e o texto fala sobre as mais recentes medidas ligadas à esfera da comunicação tomadas pela presidenta da Argentina, Cristina Kirchner (na foto), em seu país. E então a opinião do globo desanda a falar um monte de bobagens, num texto que tem apenas um quarto de página. Imagina se fosse maior..

Dentre outras críticas, o globo acusa o governo argentino de querer "domesticar a imprensa profissional independente", através de medidas legais que, segundo o jornal brasileiro, seriam questionáveis. O que já é no mínimo uma análise limitada, porque esse papo furado de "imprensa profissional independente" só engana os infantilóides que ainda acreditam que o jornalismo nasceu para fazer o bem para a sociedade e investigar de forma isenta o poder. O jornalismo, especialmente esse de grandes corporações, como o globo e similares, faz parte direta do poder e não tem a menor legitimidade para querer se posicionar como um tipo de ação independente. O globo chega a dizer que existe uma "missão clássica" da mídia, que seria "fiscalizar o trabalho das autoridades em nome dos eleitores que os escolheram e dos contribuintes que os pagam". Eu não preciso de jornalista pilantra nenhum para fiscalizar o poder pra mim, porque minha consciência crítica já o faz, sem esse tipo de intermediário ilegítimo. Portanto, a mim não enrolam com esse papo de independência.

O globo critica ainda a presidente da Argentina por se unir a países como Venezuela, Bolívia e Equador no que o jornal chama de "ofensiva contra a liberdade de expressão, um dos pilares centrais da democracia". A democracia, para quem gosta de estudar, não passa de mais um sistema pautado pela lógica da visão única. Estamos mergulhados num tipo de discurso que só aceita símbolos contrários quando estes aparecem anestesiados pelo contorno estruturado da lógica do Capital. Só é possível ser hippie se você comprar o estilo na loja do shopping; só é possível ser comunista se fizer acordo espúrio com o governo de direita do PT; só é possível fazer arte se você a transforma em mercadoria. É assim que pensa a democracia, como qualquer papo banal do cotidiano mostra bem.

"Liberdade de opinião e de expressão" não passa de um mito criado pela mídia para criar a ideia de que o capitalismo funciona. Não funciona, muito menos no Brasil, especialmente por causa da grande mídia, que praticamente monopoliza os espaços de informação pública. Coisa que a Argentina, ao que parece, tenta corrigir em seu país. 'O globo", que é parte de um quase monopólio, não poderia mesmo apoiar esse tipo de medida... o mais inacreditável é existir gente que repete, todo dia, que vivemos numa sociedade "livre". Falta de educação de qualidade dá nisso...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Dois Rios e mais um pouco





Terminei hoje de ler o romance 'Dois Rios', da escritora carioca Tatiana Salem Levy. O livro é bom. É uma experiência realmente problemática descrever duas visões paralelas acerca da mesma situação, ainda mais se a situação foi compartilhada diretamente pelos dois 'narradores', o que é o caso do romance.

Além disso, acho que a história é uma boa construção sobre a questão da perda e do luto, em suas diversas implicações, que são muito exploradas pela autora.

Entretanto, no final me pareceu que a história poderia ter sido contada em menos de 150 páginas e não nas 220 que o livro tem. Acho que há um excesso de narração, em certos momentos. O que é um risco quando se trata de romances. Mas que nesse caso poderia ter sido minimizado. Não apaga o brilho de alguns trechos, mas fica a ressalva.



terça-feira, 3 de abril de 2012

Ditaduras e maniqueísmos



O historiador Daniel Aarão Reis assina um artigo interessante que foi publicado no 'Prosa e Verso' do último sábado. O texto tem um título sugestivo, que resume bem as ideias defendidas pelo autor: "A ditadura civil-militar". Cabe uma rápida reflexão a respeito.

A tese básica é a de que considerar a ditadura um evento exclusivamente militar é uma postura que não diz exatamente o que foi o período. Isso porque houve um amplo apoio da chamada sociedade civil ao golpe, especialmente no seu início.

O objetivo principal, como se sabe, era barrar as reformas pretendidas pelo governo do João Goulart e a proximidade com o regime soviético (Reis cita Cuba, mas não era Cuba exatamente o problema, como sabemos..). Goulart queria acabar com o latifúndio, expropriar o sistema bancário e acabar com o capital estrangeiro aqui dentro. As elites da época não podiam admitir isso.

Nesse sentido, o golpe teve uma gama ampla de apoio: "grandes empresas estatais e privadas, os ministérios, as comissões e os conselhos de assessoramento, os cursos de pós-graduação, as academias científicas e literárias, os meios de comunicação, a diplomacia, os tribunais". Em maior ou menor medida, o fato é que muita gente apoiou o golpe. E o autor sugere que essa mania de falar do período como algo apenas "militar" acaba livrando a cara de todo mundo que não vestia farda, na medida em que o reducionismo acarreta logo que a maioria associe todo o resto civil à oposição. Ou seja, as massas pensam: "Se não era militar, então estava contra o golpe". Não é verdade.

Entretanto, não podemos ser bobos de achar que o globo permitiria um texto desses, que o incrimina por tabela, na medida em que ele foi um dos jornais que apoiou o golpe, sem algum tipo de interesse. E fiquei pensando cá comigo qual seria a causa.

O caso da revolta contra a comemoração dos militares, na semana passada, é um sintoma possível. O objetivo, aqui, não seria exatamente tentar implicar outros setores da sociedade no processo, mas, na verdade, minimizar a força da oposição à comemoração, ou seja, tentar esvaziar as reclamações, minimizando a participação dos militares, não mais vilões absolutos. É uma hipótese.

De qualquer forma, a análise do Aarão me agrada. Realmente, é preciso analisar o processo de uma forma ampla, para não cair em maniqueísmos, sempre sedutores aos mais preguiçosos.

Isso me lembra, inclusive, de uma outra questão, que sempre tenho dificuldade de transmitir, dado justamente esse maniqueísmo. Trata-se dessa mania de certas (muitas) pessoas, de nomear o mundo de hoje como um mundo essencialmente "capitalista", como se nada dialogasse com o Capital no discurso contemporâneo. A arte afronta o capital; a teoria da psicanálise idem; as conquistas trabalhistas não existiriam se não fossem as teses socialistas; sequer constituição teríamos. Mas o maniqueísmo geralmente impede de perceber essas coisas.

Talvez as pessoas devessem pensar menos com o próprio desejo e mais com os porões críticos de sua mente. Enxergariam melhor essas nuanças...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Desconstruindo um pseudo-conceito



Nesse samba do crioulo doido que é o mundo de hoje, me lembrei hoje de manhã de uma reflexão que fiz no final do ano passado. A lembrança me surgiu ao ler a última Cult, ainda do mês passado, março. O carro-chefe da revista é o aniversário de dez anos da morte do sociólogo Pierre Bordieu.

Ano passado, num rápido debate sobre a questão da pós-graduação no Brasil, coloquei que o mestrado em nosso país passava por um período problemático, porque as pesquisas realmente originais geralmente perdem terreno para as patotas, as famosas "panelas", que vão se formando nos cursos. Um pequeno grupo toma conta do espaço e passa a impôr as suas leituras como se fossem as únicas. Nenhuma articulação diferente escapa do catecismo do tal grupo e o avanço crítico das questões e áreas fica seriamente prejudicado. Não há dúvida de que há muita besteira nos projetos. Muita gente despreparada, que não sabe bem o que significa um curso com a complexidade de um mestrado, e que se mete a propor sandices. Mas estou falando, óbvio, do pólo oposto, ou seja, dos projetos que, por serem mais sofisticados e mais independentes que os dos grupos dominantes, não conseguem espaço.

Pois bem. Um dos professores que estava no tal debate se afetou com a minha fala e citou o Pierre Bordieu, através de um dos seus conceitos, dizendo que hoje em dia "é" assim, ou seja, temos que angariar "capital simbólico" (esse o tal "conceito") primeiro, para depois tentar voos mais largos nos espaços de poder. Discordei na hora, mas sem contra-argumentar, porque não conhecia o tal "conceito". Como sempre faço, fui pesquisar, já bastante intrigado com um "conceito" estranho desses. E por que digo "estranho"? Por que uma das coisas que a leitura crítica me ensinou foi que temos que associar a construção conceitual que fazemos com exemplos, pra ver se ela resiste. E então, pensando em pessoas que possuíam o tal "capital simbólico" citado pelo tal professor, cheguei à conclusão de que um dos maiores "capitais simbólicos" do Brasil se chama José Sarney. E quando concluí o Sarney como exemplo, outra indagação passou a me interessar: É possível que um conceito seja produtivo, na medida em que uma figura dessas se enquadra nele? Passei então a outro ponto do problema.

Pra que serve a teoria? A filosofia? A reflexão crítica em sua contemporaneidade? Essa questão me pareceu importante. E continuei refletindo. O Pierre Bordieu se auto-intitulava um "intelectual". Era conhecido como tal. Inclusive era tido como um dos intelectuais mais "ativistas", daqueles que vão para as ruas defender greves e manifestações de minorias. O problema está na questão da especificidade. Ou seja, o que difere o pensamento intelectual da greve? É fundamental pensar nisso, porque se o Pierre Bordieu me diz exatamente o que diz um não-intelectual grevista, apenas usando uma linguagem mais elaborada em termos de gramática, o que autoriza o cara a se postar como "intelectual"?

Depois do Kant, não há jeito: o conceito tem que ser 'crítico'. Tem que ser uma elaboração que tenha em vista não apenas passar os olhos sobre o acontecimento; ele precisa ilustrar a denúncia de algum detalhe da questão. E o Kant não vai fazer uma crítica da "razão prática" à toa. Ele chamava a atenção para a importância de a filosofia (e a teoria e o conceito, por associação) ser algo mais. Claro que hoje não se trata mais de propor nenhum imperativo categórico para servir de ordenamento moral para todos. Já descobrimos que isso não faz sentido. Mas também não faz sentido que a contribuição de uma pessoa que se coloca como intelectual seja repetir o que o senso comum acredita ser "a" realidade de um acontecimento. Para isso, mesmo que isso seja verdade, ele é completamente desnecessário. O senso comum já o faz.

A revista Cult, em sua página 35, define o conceito de "capital simbólico" do Bordieu como "o conjunto de rituais (como a etiqueta e o protocolo) ligados à honra e ao reconhecimento. (...) É o produto da 'transfiguração de uma relação de força em uma relação de sentido'". Apesar de ser reconhecido por seus pares dessa forma, não me parece que o Sarney seja uma pessoa das mais "honradas". Acho, aliás, que a psicanálise lança um olhar muito mais aprofundado sobre a questão do "reconhecimento" (o que me explica, em parte, um dos porquês de eu não ter me interessado até hoje pela obra do Bordieu). O reconhecimento é uma força da ordem da angústia. Não é apenas um "ritual". Para ser "reconhecido", é preciso, inclusive, que o sujeito sofra, internamente, com as limitações que o processo acarreta para a sua consciência, no que tange aos seus desejos mais particulares. O que leva à conclusão de que o fato de eu ser "reconhecido" num processo qualquer não significa necessariamente que o que eu fiz foi da ordem do mérito, ou da criatividade, ou da inovação, ou de qualquer valor que transforme automaticamente o que eu fiz em algo que mereça citação.

No caso do Sarney, como no de tantos outros que se enquadram na ideia (não-crítica) do capital simbólico, é possível dizer também que o seu reconhecimento se deu muito mais pela força do que por qualquer outro símbolo.

Outro problema aparece quando comparamos a ideia de 'símbolo' do Bordieu com a de um Lacan, por exemplo. O Lacan foi bem mais esperto, porque entendeu que, em termos de ser humano, o simbólico é não apenas dominante, mas 'dominante' nos dois sentidos. Ou seja, o simbólico é da ordem da alienação e não da participação, como dá a entender a leitura do Bordieu. Essa percepção talvez fizesse o sociólogo sacar que ter o tal "capital simbólico" só significa que você está incluído. Mais nada. Não pode servir de conceito, porque não diz nada crítico. Diz apenas o óbvio, o que já se sabe, o que o senso comum apregoa, enfim, o que os pragmáticos adoram repetir como mantra. Aliás, quer alguém mais "capital simbólico" que o Lula, ou, mais amplamente, o PT inteiro? Fizeram acordos com deus e o diabo, pra se manter no poder, e agora afundam o país num sistema falido, justamente porque não defenderam nada de realmente singular, nada de novo, nada de crítico.

É claro que não se pode esperar tamanha capacidade de transgressão e de crítica num partido político. Mas de um intelectual, eu espero sempre mais que o mesmo...

sexta-feira, 30 de março de 2012

Aonde mora mesmo o perigo? - Um olhar sobre 'Um Método Perigoso', último filme de David Cronemberg



Ontem assisti à pré-estreia do novo filme do David Cronemberg, "Um Método Perigoso". O filme trata da discordância que começa a se dar entre o pai da psicanálise, Sigmund Freud, e seu discípulo Carl Jung, a partir do tratamento da histérica Sabina Spielrein (que surge numa belíssima interpretação da atriz Keira Knightley). Quem me conhece sabe que sou um estudioso da psicanálise e o filme me interessou por vários aspectos e gostaria de tecer alguns comentários.

Primeiro, vale colocar que há uma parcialidade clara do diretor, em favor do Jung. Podemos enxergar isso tanto no sub-título, que diz "Por que negar o que você mais deseja?" (que é oposto à proposta freudiana), quanto nos créditos do final do filme, que resumem rapidamente a trajetória posterior dos dois, quando ele termina dizendo que o Jung se tornou "o maior psicólogo do mundo". Vale dizer, entretanto, que isso não interfere tanto no desenrolar o filme, que segue a angústia do autor suíço sem maiores parcialismos. A única impressão que fica, nesse sentido, aparece na forma como o Freud é caricaturado, com uma leve "marra" que os seus textos mostram que ele não tinha, de fato (a marra parece ser um contraponto claro à posição do Jung, na construção do cineasta).

O filme me parece estar centrado na proposta de que o desejo é uma coisa inevitável e que lutar contra ele não faz muito sentido. Quem assistir vai perceber isso de forma clara no personagem Otto, que o Freud manda para ser tratado pelo Jung e que acaba jogando-o contra os seus próprios fantasmas. As discordâncias posteriores entre os dois pensadores vão se acentuar para outros ramos do problema da mente, mas como essa é a principal questão tratada pelo filme, limitar-me-ei a ela.

Na verdade, minha tendência é concordar com o Freud. O desejo não é inevitável. O processo de análise (seja ele o do consultório, seja o que acontece na própria vida, que eventualmente nos joga contra a parede, exigindo que confrontemos angústias diversas) só ocorre de fato quando o sujeito percebe que o seu desejo nunca é uma realidade independente, em si mesma. O desejo não existe sem o confronto inevitável com a figura do outro. Dizer que o desejo não pode ser negado é desconsiderar que o tempo pode ser elaborado como processo e não somente como "carma". Acreditar que o desejo não pode ser negado seria acreditar que qualquer "tesão" produzido pelo inconsciente humano teria que ser satisfeito na hora, sob pena de morte imediata do sujeito. E não é assim que funciona. Muito pelo contrário, aliás. Uma das questões geradas pela personagem Sabina é justamente a de chamar a atenção para isso.

Entretanto, o curioso é que essa questão aparece mediada pela histeria dela. E esse me parece ser um ótimo eixo para pensar o mundo de hoje. O autor não pretende exatamente isso com o filme, mas a sua defesa (sutil, mas óbvia) da relevância inevitável do desejo pode também ser usada na reflexão. A histeria, para quem conhece a psicanálise, se caracteriza por uma insatisfação incessante, que aparece como reflexo da falta inevitável que o sujeito porta em relação ao real. Essa insatisfação, na histeria, se dá geralmente de forma violenta (o que inclusive a coloca como um dos sintomas mais "explícitos", por assim dizer) e aí podemos garimpar uma pista.

Hoje o discurso feminino está em vigor. Isso é visível em todas as esferas. Outra característica do mundo atual é a de uma luta incessante pelo direito de gozar à vontade e sem limites, como se isso fosse a completude possível. Disso decorre o aumento exponencial dos reclames de depressão neurótica e, como sintoma agrupado, um ressentimento claro da sintomática feminina. Traçados esses detalhes, continuemos.

Outro dia vi um doutor em psicanálise (não me recordo o nome dele) dar uma entrevista dizendo que temos, hoje, uma melancolização crescente na cultura. Vou discordar e dizer que para mim o que temos, atualmente, é uma "histerização" do discurso, e não uma preponderância da melancolia. É possível ver isso no consumismo (insatisfação e carência), é possível ver isso na propaganda ('viver sem fronteiras' etc) e é possível vislumbrar isso nitidamente no cotidiano (pautado hoje pela sedução da retórica, que tem contornos bastante histéricos, se paramos para olhar bem). Em suma, o mundo de hoje é, para mim, profundamente histérico e não melancólico. E a depressão tem uma aparência bastante histérica, na medida em que não atinge o grau de esvaziamento da melancolia (que me parece, ela-melancolia, mais rica como episódio analítico - e por tabela crítico - do que a primeira).

Uma feminista dificilmente entenderia isso, porque na cabeça das feministas o que importa é defender a sintomática feminina. Na celeuma que o filme do Cronemberg dramatiza, o mais importante é pensar que, independente da sintomática, o desejo aparece colocado como base possível de tudo e porto de chegada da relação humana com o mundo e a vida ("Por que negá-lo?"). Em contrapartida, se existe uma ética no campo proposto pelo Freud, ela reside no fato de que ele tenta pensar na análise como uma re-elaboração do sofrimento causado pelo confronto entre o desejo e o superego (estou usando a nomenclatura freudiana, para me ater ao filme), ou seja, a impossibilidade de sua satisfação plena e absoluta.

O que penso, finalmente, é que, numa lógica histérica, é claro que a proposta do Freud vai aparecer como uma negação do desejo que deve ser ultrapassada, sempre em favor dele. É assim que pensa o mercado, é assim que pensa a propaganda e é assim que pensam todas aquelas pessoas que acreditam que a vida só é possível em termos imediatos e fugazes. Obviamente, em todos os níveis que superam o mero gozo imediato, é preciso elaborar: para votar, para conviver com as diferenças das pessoas, para estudar, para refletir as coisas em sua complexidade inevitável etc. E se a histeria é fermentada, tudo isso fica impossível.

Nesse sentido, acho que o filme deve ser pensado em suas duas faces. A história mostra bem o perigo da histeria e do desejo defendido como única ponte possível com o mundo. Essa parece ser uma das boas contribuições da ética da psicanálise. E como o autor dá uma escorregada sutil em direção a essa defesa do desejo, o filme pode ser observado a partir da reflexão dessa dicotomia. A pergunta que fica: aonde reside o maior dos perigos, no método ou no desejo visto como algo inevitável e sem re-elaboração possível? Pano pra manga...