
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Empreendendo uma reflexão

segunda-feira, 2 de novembro de 2009
O que deu no poeta?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Um achado na livraria

quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Aonde está essa tal de paz?

sábado, 17 de outubro de 2009
E a saúde, que é bom...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Osso ou Pernil?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009
O Acaso e a Verdade

Contos

segunda-feira, 4 de maio de 2009
Hibernação...

Este post é para um esclarecimento aos leitores amigos deste blog, que acompanham, de uma maneira ou de outra, minhas reflexões e pequenos exílios virtuais. Estou de mudança. E isso atrelado a muito trabalho e a vários pepinos para resolver, eu que sou professor nesse país que tem um monte de gaiato que só pensa em lucro.
Esse quadro tem me tirado o tempo para escrever da maneira que gosto, com rigor e com frequência. Portanto, vou dar uma pequena hibernada do blog, com aparições esporádicas, quando der. Quando tudo se normalizar (ou pelo menos chegar perto disso), retorno com fôlego renovado.
Ah, sim: meu aniversário é neste sábado, dia 9, e vou tentar postar alguma coisa, só para constar.
É isso. Abraços e beijos a todos(as).
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Prêmio Dardos 2009

“Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web".
2) Linkar o blog pelo qual você recebeu a indicação;
3) Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prêmio Dardos;
4) E avisá-los, claro!
Vou indicar 10 blogs para a lista, como é de praxe. A lista segue abaixo. Abraços a todos.
Todo Prosa - www.todoprosa.blogspot.com
Um blog de Nada - www.umblogdenada.blogspot.com
Moça do Fio - www.mocadofio.blogspot.com
Informal e Ilegível - www.informaleilegivel.blogspot.com
Instantes Imemoráveis - www.instantesimemoraveis.blogspot.com
Porém, ah porém - www.cassionei.blogspot.com
Melhor Opinião - www.melhoropiniao.blogspot.com
Janela Principal - www.janelaprincipal.blogspot.com
Os Pensamentos de Eu e Ela - www.ospensamentosdeeueela.blogspot.com
Fetiche de Cinéfilo - www.fetichedecinefilo.blogspot.com
sexta-feira, 24 de abril de 2009
O 'semblant' e as traduções

O Lacan realmente não é um autor fácil.. mas quando você entra na lógica dele, fica uma leitura muito interessante, por que é um desafio a cada instante, tanto no aspecto da própria lógica quanto no da humildade necessária para compor as peças que ele vai sugerindo.
Acabei de ler um pequeno texto dele, chamado "Lituraterra", uma brincadeira com as palavras 'literatura', 'terra' e 'litoral'. A questão proposta é pensar a estrutura da literatura a partir do olhar psicanalítico. O texto se encontra na compilação chamada "Outros Escritos", publicada pela Jorge Zahar, e me suscitou duas reflexões mais amplas.
Vou começar pela segunda, que apareceu no final do texto, por que ela servirá como introdução para a primeira. Lacan conta sobre uma viagem que fez ao Japão, para refletir a questão da linguagem como estranhamento. E faz uma associação muito interessante, interessante especialmente por seu aspecto irônico. Ele diz que o sujeito (o 'indivíduo', pra simplificar) se compõe de seus "cerimoniais", que visam dar a impressão (ou a aparência) de que nunca há nada escondido. Nesse sentido, e pensando na questão da comunicação (tão ilusoriamente pensada nos tempos atuais), ele propõe que a linguagem é um jogo de "traduções perpétuas" (p. 25). Para mostrar o quanto o trabalho de um intérprete fica mais fácil num país como o Japão, por causa da completa diferença cultural com o ocidente, que inviabiliza uma interpretação automática do turista - que acabaria, assim, impossibilitado de embasar um contraponto forte -, Lacan compara a situação com uma vez em que um eminente biólogo fez questão de lhe demonstrar alguns de seus trabalhos a ele.
Para resumir, Lacan diz não ter entendido nada do que o cara demonstrou, o que não inviabiliza, claro, suas formulações. Mas dá a deixa: a comunicação científica é uma que pode receber esse nome, comunicação, justamente por que não se constitui como diálogo, mas como discurso alhures (em outras palavras, um discurso com código próprio, com uma diferença instituída pois).
Minha reflexão: oposto ao diálogo é o debate, por que confronta as pretensas verdades em suas diferenças, exigindo traduções e deslocamentos de posição. O cerimonial exagerado do diálogo produz muito mais aquiescência do que crise, de fato. Mesmo que pensemos nos diálogos platônicos como exemplo. No que consegue algum deslocamento, o diálogo platônico transcende a si próprio enquanto tal, ascendendo ao patamar de debate. Aí, então, comunica algo de fato.
A primeira reflexão diz respeito a uma palavra francesa e sua tradução para o português. Pista do Lacan e da tradutora, Vera Ribeiro. Lembremos que o cerimonial visa compor uma aparência de que não há nada escondido. A palavra é semblante, do francês semblant. A palavra, no português, significa apenas "rosto" e "fisionomia", acepções mais gerais. Na França, significa sinônimos mais específicos, como "o que parece", "assemelha-se", "finge". O verbo fingir dá a deixa de uma associação direta com o caráter de aparência da fala em sua relação com o pensamento. "O saber é posto a partir do semblante", diz Lacan. E como propõe a verdade como fingimento, ele permite a reflexão de que semblant significa "fingimento" sem significar, igualmente, "mentira". Aparência e fingimento se associariam, dessa forma, ao registro da verdade, pela via da sinonímia com a ideia francesa de "semblante".
Ora, se a fala é um cerimonial do pensamento, estruturalmente estamos no registro do fingimento, da aparência. O que não significa que não possa haver concordância entre os dois. Mas aí já entraríamos no registro da análise, ponto para outro dia.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
10 livros para entender o século XX e o início do século XXI

O século XX ficou marcado por ser um período de substituições, de ilusões por outras ilusões. Das promessas do Iluminismo, de que a Igualdade, a Liberdade e a Fraternidade poderiam ser signos eficientes para o convívio dos povos, sobrou pouco. Muito se esperava da tecnologia, que criou a bomba atômica, ápice do masoquismo humano, além da gradual destruição das possibilidades naturais para a vida do homem, pela via da degradação ambiental.
Outra ilusão que vingou foi o capitalismo, que conseguiu se firmar como altar de salvação para a conexão global, legando aos indivíduos uma metáfora perfeita de sua própria estrutura conflituosa e narcísica. A sociabilidade passou a um estágio de espelho, reproduzindo, autofagicamente, as demandas egóicas de cada um. A simulação de uma liberdade sem limites ganhou a adesão geral, o que construiu a plástica perfeita para os jogos de poder da minoria de sempre: as massas alienadas convencidas de que o 'valor de troca' era seu único eldorado possível.
Os chamados genocídios, matanças de grupos inteiros de etnias, continuaram por todo o século. E continuam até hoje. A novidade é que o terrorismo substituiu as guerras declaradas no cenário bélico.
Enfim, tudo isso é um problema de crença. Não apenas a crença em religiões.. A crença no dinheiro como valor positivo talvez seja a mais grave de todas, a geradora das mazelas desse pedaço de tempo.
Mas vamos deixar de lero. Li não sei aonde o título "Dez livros para entender o século XX", mas muito de relance. Entretanto, a coisa ficou na minha cabeça e decidi fazer minha lista. Esses livros ampliaram minha visão sobre esse extremamente problemático período que vai do início do século XX até os dias e hoje. Devem existir outros importantes. Mas esses me parecem os principais. Fique à vontade.
(Obs: escolhi apenas os livros filosóficos e analíticos, excluindo a literatura, apesar de reconhecer nela peça fundamental para ampliar o olhar, sem sombra de dúvida)
"O Mal-estar na Civilização" (Sigmund Freud): Nesse trabalho, Freud coloca em xeque o mandamento cristão do "amai ao próximo como a ti mesmo", chamando a atenção para a sutileza egóica do cristianismo contida no mesmo. A violência implícita ao mandamento vem à tona, assim como a manutenção de um igual distanciamento de nossa própria violência, que seria, para o inventor da psicanálise, peça analítica fundamental.
"Uma breve História do Tempo" (Stephen Hawking): O físico, figura eminente da ciência contemporânea, expõe as conexões atuais entre a teoria da relatividade de Einstein e a mecânica quântica, indicando mudanças completas para os paradigmas científicos tradicionais, que - digo eu - atingem a parte mais radical do pensamento das ciências humanas, especialmente no que diz respeito à discussão sobre as singularidades, extremamente afetada pelas mudanças.
"A Sociedade do Espetáculo" (Guy Debord): Relendo conceitos de Marx e Hegel e avaliando a conjuntura do capitalismo da mercadoria em sua época (década de 60), Debord expõe com mestria a estrutura da passividade contemporânea através da noção de "espetáculo", que mescla a crítica do lazer e do entretenimento como agentes de uma socialização virtualizada ao extremo. O que ele chama de "prática social unificada", crise brutal da diferença, da política e da arte.
"As Palavras e as Coisas" (Michel Foucault): Fazendo um inventário analítico do Ocidente pós-Renascimento, Foucault mostra como o discurso da ciência ascende ao topo epistemológico do mundo, vingando como religião principal do modo de vida que sustenta as enunciações atuais. O afastamento de uma lógica metafórica essencialmente representativa, a do Renascimento, dá lugar a uma mitologia das classificações, que define a ideologia dos tempos modernos. É o 'poder' visto pelo plano de sua lógica normativa, que aproxima-o, em sinonímia, da ideia de 'saber'. Além disso, em suas pesquisas extremamente rigorosas, Foucault nos apresenta a gênese do credo econômico, o que talvez seja a principal mitologia do mundo moderno, até hoje.
"Dialética do Esclarecimento" (Adorno e Horkheimer): Os autores passam a limpo a noção de "Esclarecimento", que consta da palavra alemã para Iluminismo (Aufklarung), demonstrando o quanto de falácia existe no projeto ocidental pautado pela razão tecnocientífica. A transformação da arte em mercadoria, pela via da semântica da propaganda e do cinema, aparece como núcleo do principal texto, "Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas", que tem mérito semelhante ao trabalho de Debord, qual seja, o de chamar a atenção para o problema contemporâneo da passividade como valor positivo.
"Da Sociedade Pós-Industrial à Pós-Moderna" (Krishan Kumar): O pensador inglês analisa o trajeto histórico das noções de "Modernidade" e "Modernismo", e nos faz refletir o declínio da semântica da tradição e a ascensão da mitologia do progresso como ordenadora do discurso ocidental. Dentre outras reflexões importantes.
"A Transparência do Mal" (Jean Baudrillard): O francês ataca aquele que talvez seja o principal sintoma da crise da diferença como via de conflito socializante e político, oriunda da mitologia globalizada: a supressão da lógica do Mal, trocada por um discurso higienizado de suas contradições pelo caminho de uma produção ininterrupta e ilusória de positividade que anestesia a negatividade, exilando a possibilidade crítica a um estado de 'museu da inteligência', que só apareceria como eufemismo ou como melodrama.
"Guy Debord" (Anselm Jappe): Usando como mote o estudo da vida e da obra do pensador francês, Jappe perfaz o caminho teórico e político que levou a economia ao estágio de produtora ideológica de toda a vida humana, submetida às suas leis de uma forma extremamente grave. Um trabalho de pesquisa amplo, que analisa os caminhos que levaram o pensamento crítico do Situacionismo ao topo do debate teórico do século XX.
"Cosmos, Caos e o Mundo que Virá - As origens nas crenças no apocalipse" (Norman Cohn): Além de ser pesquisa rica e rigorosa sobre a temática do apocalipse, o livro traz parte fundamental da influência discursiva do Oriente Antigo para o mundo ocidental, especialmente no que diz respeito à ideologia do 'discurso único' que permeia a mitologia da globalização atual, sendo essa última pista minha, relendo as conexões que o autor apresenta.
"BraZil no Prego" (Gilberto Felisberto Vasconcellos): Neste importante trabalho, o autor faz importante levantamento analítico a respeito das influências ideológicas da política e do pensamento hegemônico no Brasil do último século, desde as ideias que vingaram, como a economia neoliberal e sua sustentação acadêmica na CEPAL, até os pensadores que foram excluídos do cenário pelo ocultamento forçado, como a figura do cineasta Glauber Rocha, por exemplo.
E é isso. Espero que curtam a lista. Se tiverem sugestões, só falar.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Sibéria neles...

Quando fechei contrato com a NET, o pacote incluía o básico da TV a cabo (que eu não assisto mesmo...), a internet e o chamado NET-fone. Os três juntos custavam 119 reais. Depois de um certo tempo, pedi pra cancelarem o net-fone, que eu não usava também, e que estava pagando à toa. Custaram, mas cancelaram.
Entretanto, um mês depois de cancelarem o net-fone, me enviaram uma conta mais cara que as anteriores, no valor de 151 reais. Do mês passado até sexta-feira passada, liguei 3 vezes pra lá, tentando acertar a coisa, porque argumentei ser injusto pagar mais caro por dois serviços que por três. Depois de perder em média meia-hora em cada telefonema, acabei conseguindo a promessa de que um novo boleto seria enviado, com o valor anterior.
Sexta chegou o novo boleto. Valor: 151 reais...
Tô começando a achar que a bobeira do pessoal da propaganda da net, que inventou aquele comercial tosco (porém sutil), que traz a Sibéria como um lugar que todos deveriam abandonar, contaminou a parte da empresa ligada aos serviços de assinantes. Como temos poucas alternativas (porque o serviço da Oi também é uma porcaria), ficamos reféns da incompetência virtual.
Podemos propor como solução irônica o inverso do que o comercial propõe: que os funcionários incompetentes da empresa sejam mandados para a Sibéria, para servir de alimento para o gatinho acima, o tigre branco da Sibéria, bichinho simpático e inofensivo... Será que sobraria gente na net?
sábado, 18 de abril de 2009
Momentos de gozo intelectual...

Num de nossos incontáveis bate-papos da época da universidade, conversávamos eu e o meu à época professor - hoje amigo - Marcelo Fonseca, sobre as diferenças entre o gozo simbólico e o gozo sexual. Pensávamos especialmente sobre a questão da contemplação, em sua relação com a arte.
A diferença é bem sutil, porque uma coisa é a ejaculação e outra o gozo. Sem rodeios, a verdade é que tem vezes que se ejacula sem o gozo, que é parte fundamental da satisfação gerada pelo ato, qualquer ato que envolva isso que se chama de 'relação simbólica'. Vale o toque porque, diferente da ejaculação, o gozo é sempre simbólico. Ele sempre depende de uma conjunto maior de fatores, tanto os ideológicos quanto os circunstanciais. O gozo é, inclusive, mais complexo que a ejaculação. "Gozar" não é tão simples assim...
Feito este intróito, passemos ao principal deste texto. Ele vem ao mundo por conta de vários momentos de gozo que eu estou desfrutando ao ler o belíssimo livro "Cancioneiro", que tem diversas poesias do mestre Fernando Pessoa, que foram publicadas em periódicos, quando ele ainda estava vivo. É uma coisa brilhante atrás da outra, um gozo atrás do outro. É realmente impressionante como o cara olhava para as coisas com as defesas controladinhas, nas rédeas. Pessoa transitava pelo engano com a tranquilidade e a elegância de um maestro do infinito.
E chega de mais delongas. Vão aí alguns trechos que achei geniais. Deliciem-se.
"Não há lâmpada de haver"
"Como o que nós vemos é nítido e pouco"
"Talvez esta coisa da alma que acha real a vida..."
"E na interior distância do meu real..."
"Sinto a minha vida de repente / Presa por uma corda de Inconsciente / A qualquer mão noturna que me guia"
"Por que ter asas simboliza / A liberdade / Que a vida nega e a alma precisa?"
"Tudo é ilusão / Sonhar é sabê-lo"
"Contemplo o lago mudo / Que uma brisa estremece. / Não sei se penso em tudo / Ou se tudo me esquece"
"O corpo é a sombra das vestes / Que encobrem teu ser profundo"
"Por que é que um sono agita / Em vez de repousar / O que em minha alma habita / E a faz não descansar?"
"O instante é o arremedo / De uma coisa perdida"
Detalhe: não li nem um terço do livro ainda... Não deixe de ler, porque vale muito a pena, especialmente pra quem aprecia a inteligência como um valor positivo...
sábado, 11 de abril de 2009
Ode ao complexo

No mundo de hoje, alargar o repertório é algo que não consta da pauta. E um dos mitos que ajudam a disseminar esse quadro é o da linguagem como objeto, instrumento ou ferramenta que o sujeito usa a seu bel-prazer.
Se há uma coisa que a arte mostra pra gente é que no fundo é a linguagem que 'nos usa'. Exatamente porque a linguagem é esse mar no qual conseguimos depositar apenas algumas gotas durante a vida e do qual retiramos apenas a maresia de nossas inquietudes. Esse mar não existe sem cada um de nós, não há dúvida; mas é muito maior que todos nós juntos, isso também é certo.
Pensei nessa questão porque tenho ouvido muito isso: que as regras só servem para atrapalhar, que a complexidade é completamente desnecessária, que a teoria é menos importante que a "prática"...
Recentemente coloquei aqui uma questão que desenvolvo há algum tempo: a expressão "violência urbana" é uma prova de que o projeto urbano de concreto é falido no sentido de que não civilizou as pessoas, como prometia quando inventou a ideia mentirosa de que quem mora no campo é selvagem e precisaria do concreto e das indústrias para melhorar como ser humano. Malandragem de europeu, como hoje sabemos.
Entretanto, isso não significa que o legado cultural dos europeus deva ser jogado fora em bloco. A ressalva é importante porque a conclusão anterior pode elevar o "facilitarismo simplório" do mundo de hoje ao status de solução. Muito pelo contrário. Apresentar a ladeira da cultura superior ao indivíduo não é apenas exercício de sofisticação; é, principalmente, fazer jus ao projeto de individualidade crítica do Ocidente, que nasce com Kant e que se dissemina pela arte e o pensamento modernos. Mais que isso: trata-se de um exrecício de gratidão com a arte e o pensamento críticos, que nos legaram a certeza de que há pelo menos uma maneira de perceber o mundo para além da alienação passiva: é apresentar, como elemento de luta contra nossa tendência à servidão voluntária, uma vontade de apropriação (termos que aproprio do Margno).
E vamos além: não há criador efetivo, não há mente que transcenda o mundano, se essa mesma mente não desloca o itinerário cultural já desenvolvido. Não há forma de "usar a cultura". Isso é mito de pragmático tolo. A cultura sempre te enquadra. Mesmo que você ache que tá abafando... Em outras palavras, podemos dizer que toda transgressão está fadada a se tornar lei. Essa é a lógica da coisa. Há, entretanto, uma pequena via de escape.
Na arte e no pensamento crítico passamos da repetição automática ao movimento perpétuo. Produzimos o que o Barthes chama de "trapaça" e o que eu chamo de "im-postura". Ou seja: apesar de manter a cultura em seu domínio, produzimos algumas ondas. Ondas que só serão legítimas se em consonância com a história.
Riscos? Sempre existirão... O que não dá é pra vender o risco como verdade suprema. Instrumentos da cultura contra nossa própria individualidade, podemos, entretanto, manter em crise os absolutismos do absoluto.. Não é simples. Basta (!!) que continuemos a remar contra a maré. A despeito da segunda opção, que seria a de afundar na maresia subterrânea da mesmice...
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Sombras, acasos, erros e grandiosidades

Achei esse trecho sobre o livro "Elogio da Sombra", do Borges, na internet. É uma espécie de sinopse crítica sobre o livro, e é atribuída ao próprio Borges. Tem a cara dele, realmente. Sublinhei o trecho que mais me impressionou:
"Este, escrevi, é meu quinto livro de versos. É razoável presumir que não será melhor ou pior que os outros. Aos espelhos, labirintos e espadas que já prevê meu resignado leitor acrescentaram-se dois temas novos: a velhice e a ética. A poesia não é menos misteriosa que os outros elementos do orbe. Tal ou qual verso afortunado não pode envaidecer-nos, porque é dom do Acaso ou do Espírito; só os erros são nossos. Espero que o leitor descubra em minhas páginas algo que possa merecer sua memória; neste mundo a beleza é comum". J. L. B.
Genial. Simples e genial. É por essas e outras que não sou mais um democrata, há um bom tempo. Só faço reverência para grandiosidades como essa...
Frase do dia...

Mae West foi uma atriz norte-americana, que chegou a fazer filmes em Hollywood. Era uma espécie de "sex-girl", uma das primeiras a fazer filmes com conotação erótica. Fotos suas com peles de raposa, esbanjando o farto decote, ficaram famosas nos Estados Unidos da época. Foi, até mesmo, tema de quadros do grande pintor Salvador Dali, como esse retratado acima.
Mae, entretanto, não era uma atriz de talento. Agradava muito mais pelo erotismo do que por qualquer outro motivo mais nobre. Entretanto, sua veia cômica (chegou a escrever comédias para o cinema e o teatro), nos legou algumas tiradas bem interessantes. Lembrei de uma conversando com uma professora, hoje, no colégio. Acho bem apropriada para certas situações. Tire suas conclusões:
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Compart(est)ilha(ça)ndo....
O fato de ser enigma não te exime da responsabilidade.
As portas do labirinto são sempre paredes disfarçadas.
As respostas que encontramos são vésperas...
Ao acordarmos, os passos do destino puxam a corda, amarrada aos nossos pés.
A mente, a alma, o espírito.. todos esses forasteiros conspiram contra aquilo que acreditamos ser o casaco mais acolhedor.
E no canto mais silencioso de suas conjecturas, repousam, em brisa, as asas de sua verdade. Prontas para o abandono. Para o confronto. Para os dois.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Senhores-escravos...

Instantâneos de um mesmo tema. Ontem, dois comerciais de televisão, um do governo federal e outro do governo estadual; hoje, uma bate-papo com o professor Bruno, no colégio onde dou aulas.
O comercial federal tem como foco exaltar a educação técnica, como o maior êxito educacional do país, resultado do que seria o "belo trabalho do governo Lula" (sic). O estadual, nos brinda com a perola de que jamais esqueceremos de que foi com Sérgio Cabral que os professores do ensino público ganharam lap-tops para trabalhar... (!!!)
O grande mito do mundo contemporâneo, dentro do tema da educação, é justamente essa conexão perigosíssima entre o tecnicismo e o saber escolar (e mesmo o superior). O falatório da propaganda dos governos em questão demonstra claramente que a semântica educacional está cada vez mais voltada para formar trabalhadores, ao invés de formar pessoas socializadas. E isso tem nuances bem problemáticas.
Já debati isso em outros textos, mas vale reiterar que a educação escolar não foi feita para formar para o trabalho. E nisso ela acerta em cheio. Porque não existe trabalhador que não precise ser uma pessoa, e uma pessoa inserida no contexto de sua sociedade, de seu mundo.
Hoje, a demanda dos alunos - alçados ao altar do saber pela pseudo-teoria pedagógica a la Emília Ferreiro - é inteiramente ligada ao tal "mercado". A eles só interessam os dados que lhe farão mais ricos e "bem-sucedidos" no trabalho. O saber como cultura, como regra, como complexidade social, não aparece mais sequer como hipótese. O que interessa é pensar em si. O tal "culto-de-si" de que fala muito apropriadamente a Elisabeth Roudinesco.
E, como nada é só o que aparenta ser, existem as tais implicações simbólicas do que se escolhe como lógica. No caso em questão, a educação tecnicista acarreta em mentalidades cada vez mais desvinculadas dos símbolos socializantes, de identificação coletiva. O que interessa é criar mitos cristalizados acerca da própria profissão, e dos lucros possíveis (salvo as exceções de praxe...).
Dá nisso: todo mundo achando que tem mais conhecimento porque sabe usar o computador, confundindo quantidade com qualidade. E a educação, em todos os sentidos, escoando pelo esgoto do cinismo, que viaja por trás dos sorrisos alegres da propaganda.
E lá vai o Brasil, descendo a ladeira...
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Debord e a regra

Guy Debord
(pensador, filósofo e cineasta francês - "Sociedade do Espetáculo", p. 120)
Debord critica, no decorrer da citação, a autonomia que a filosofia ganhou no discurso moderno, o que, em seu entender, acarreta no problema de que toda disciplina tornada autônoma acaba desmoronando. Basta pensar nessa expressão que ganhou o falatório cotidiano, "filosofia de vida", para entender o recado do francês. A filosofia perde muito de sua importância no exato instante em que qualquer um passa a poder se achar filósofo, pelo simples fato de ter dito alguma coisa engraçadinha.
Paradoxalmente, portanto, temos um mundo de exceções (individualidades pretensamente desvinculadas) que confirmam uma única e exclusiva regra: a regra da não-regra. E o que é pior: não se trata da não-regra da arte extrema, mas da não-regra da banalidade. Na primeira, o sentido é posto em movimento; entretanto, na segunda, ele é substituído pela lógica da estupidez, que esconde o sentido na gaveta e passa a movimentar o vazio oxigenado pela felicidade demente.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Grande Ferreira Gullar...

Acabo de ler a entrevista do poeta Ferreira Gullar para a revista 'Bravo!' deste mês. Perguntas inteligentes, respostas inteligentes.
Gullar fala de questões relevantes, como a importância do estudo para o domínio da linguagem. Em consonância, vai sua opinião sobre a crise atual das artes, tema que Affonso Romano de Sant'Anna trata de maneira semelhante em seu livro "O Enigma Vazio", que estou lendo aos poucos. Para o poeta maranhense, muitos talentos são desperdiçados por conta da falta de rigor. A pessoa acha que "tem vocação" e pronto: não faz mais nada. A coisa passa longe disso, claro...
Quanto à crise da arte, Gullar diz o seguinte: "No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música" (p. 57). É uma questão importante, porque existe um saber chamado arte, que fica negligenciado neste mundo que trata qualquer coisa aparentemente "nova" como uma brilhante criação humana. Nesse ponto, vale lembrar os autores que chamam a atenção para as sutilezas do discurso, como os estruturalistas. Pela forma como se manifesta um ato, podemos avaliar sua importância com mais rigor do que se prendendo apenas ao conteúdo. O que me faz lembrar, inclusive, de como a própria ideia de "interpretação" foi jogada na vala comum, sendo álibi para o mito da liberdade de fala que existe hoje.
Outro ponto interessante que Gullar aponta é a semelhança do capitalismo com a "natureza", o que explicaria seu "sucesso" (apesar do fracasso), no sentido de que se alimenta de suas próprias crises. "O capitalismo vai imperar porque segue a lógica da natureza. É brutal, é feroz, é amoral. Não demonstra piedade por nada nem por ninguém. Em compensação, nos oferece uma série de benefícios" (p. 59).
E critica o Lula, por ser um "pelego", ou seja, uma espécie de capacho, que fica fingindo que agrada a todo mundo, mas no fundo esconde suas verdadeiras ideologias. O Lula "agrada os banqueiros e os empresários" e, por outro lado, "corrompe o povo com programas assistencialistas". "Resultado: todo mundo confia no Lula, o rico e o miserável. Em decorrência, as tensões sociais se diluem. Que maravilha, não? Um país de carneirinhos..." (p. 59).
Sempre bom ouvir as pessoas inteligentes que este país ainda tem...
terça-feira, 31 de março de 2009
Filosofia de empresa?...

Desculpem a pequena abstinência, mas a primeira semana de testes me pegou desacostumado, devido às férias. Ainda em meio às correções, aí vai uma pequena reflexão acerca de uma indicação literária que recebi. É importante salientar que estou cruzando a sinopse do livro com a imagem que retive de uma entrevista do autor, que assisti na época da pós-graduação, há dois anos e meio.
O nome dele é Mario Sérgio Cortella, que a sinopse diz ser um filósofo, professor da USP e "conferencista". Em curtas linhas, o livro se chama "Qual é a tua obra?" e parece 'utilizar' (sic) a filosofia para pensar questões sobre temas ligados à retórica empresarial, como "gestão" e "liderança", dentre outros.
A despeito das fontes abordadas, é importante frisar que a filosofia nasce e cresce como discurso crítico-reflexivo sobre o mundo que a circunda. Comecemos então dizendo que ninguém "usa" a filosofia: é a filosofia que usa o sujeito, na medida em que o simbólico no qual o mesmo encontra-se inserido possui feixes "contaminados" pela filosofia de forma inexorável. Em outras palavras, exemplificando, não dá pra pegar o Platão e usá-lo de qualquer maneira, para pensar qualquer coisa. Estamos falando de um autor e de uma obra (!) que se sustentaram
durante quase dois milênios e meio, resistindo às antíteses do tempo e articulando-se com outras obras de peso, para construir enunciação digna de referência e de rigor conceitual.
O segundo ponto que me parece importante é pensar no que é exatamente a filosofia. Um olhar atento para a verdade que se esconde por detrás dos sofismas e da retórica, como preconizou Platão, e como reiteraram todos ou a maioria dos grandes nomes que lhe fizeram eco. Na postura do Cortella, o que surge é, na minha ótica, uma espécie de reducionismo do discurso filosófico, numa tentativa de aplicá-lo a um tipo de discurso que deveria sempre ser objeto de postura antitética - e não reverberante - por parte de um filósofo. 'Filosofia de empresa' soa extremamente sofismático... Pensar na filosofia como forma de enxergar detalhes de dentro de uma lógica como a das empresas precisa passar pela avaliação da própria estrutura contraditória do discurso do mercado. Não dá pra deixar na gaveta, por exemplo, o que o Marx ponderou acerca do valor de troca e da mais-valia, e pensar na vida da empresa como se ela fosse algo apenas ligado a seus mitos internos.
Nesse sentido, o autor em questão faz parte de uma linha contemporânea que pensa a filosofia como instrumento de conexão com qualquer coisa, de qualquer maneira. Mais que isso: como apêndice de qualquer coisa. Estão invertidos os papéis nesta reflexão. Não há dúvida de que não é o tipo de pensamento que acrescenta ao corpo discursivo da filosofia. Fora o fato de que um filósofo fazendo palestra pra empresário é, no mínimo, dantesco...
Para o Cortella, vale o aviso do escritor Goethe: "Quem de três milênios não é capaz de se dar conta, vive na ignorância, na sombra, a mercê dos dias, do tempo". Filosofia não é algo que possamos usar a nosso bel-prazer. É um tanque de guerra do pensamento humano, alerta contra si mesmo. E precisa sempre fazer jus ao tamanho de sua importância.
terça-feira, 24 de março de 2009
E aí, quem vai dar o troco?...

Sexta-feira passada entrei no 606 pra voltar pra casa, quando sai da faculdade. Logo atrás de mim entrou um casal, que aparentava ter entre 18 e 23 anos, não mais que isso. Acompanhados de outro sujeito, com a mesma idade aparente. O primeiro comentário do primeiro, quando sentou, foi o seguinte: "Isso tá ficando demais: agora, o motorista também é trocador, e isso só atrapalha... daqui a pouco professor também vai ter que ser cozinheiro..."
Solidarizei-me com a fala, por motivos óbvios. E cabe pensar em mais esse movimento de desrespeito com as pessoas, em todos os sentidos, que vem especialmente do poder público, que é responsável pela qualidade do transporte público do brasileiro (mesmo que esse mesmo brasileiro já não esteja tão antenado assim para este tema tão importante). É dos governantes que nascem medidas como essa, de eliminar a figura do trocador, trazendo atraso e perigo para os usuários. Isso porque são eles, os governantes, que têm que controlar essa criminosas concessões privadas dos transportes públicos, que acabam transformando a lógica da coisa em mercado. Mercado que só pensa em lucro, quando o problema maior é manter os empregos dos trocadores, tanto pela questão do próprio emprego, quanto por conta do aumento de segurança que isso acarreta.
Mas.. é esperar demais dessa gente que só sabe usar como retórica esse totem chamado "desenvolvimento". Talvez seja a maior mentira do mundo contemporâneo, enfim...
E não esperem que eu vá para a cozinha... meu arroz sai papado.
quinta-feira, 19 de março de 2009
O artista e a ambiguidade

A escritora Nélida Piñon, que pertence à Academia Brasileira de Letras, deu uma pequena entrevista ao Caderno Ideias do JB, que saiu neste sábado. Dois eram os pontos principais da conversa: o lançamento de seu novo livro, "Coração Andarilho", e sua possível indicação para o Prêmio Nobel de Literatura deste ano.
Questionada sobre seu novo trabalho não ser um livro de memórias tradicional, ela confirmou que realmente não era, completando de forma curta e muito inteligente, o que transcrevo para os leitores, como a frase do dia:
Só essa frase já me deu vontade de ler a autora. Bela reflexão.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Foucault, Marx e o Poder

Há uma questão em filosofia que é especialmente complicada para os dias de hoje: a questão do poder. E quando uso a expressão "questão do poder" já é buscando uma postura de impasse, na medida do que surge como relação entre mim-sujeito e o objeto visado pela reflexão. Falar em "tema do poder", por exemplo, me parece pouco, diante do fato de que parece que ele-poder não comparece no próprio enunciar da coisa, como se o poder fosse mero tópico passivo, a espera de alguma mente dona-de-si para avaliá-lo (o que se insere no mito do esclarecimento iluminista).
Acho complicada por dois motivos. Primeiro, porque o materialismo de Marx encontra-se impregnado no imaginário contemporâneo. O alemão diz assim: "Não é a consciência dos homens que determina o ser social. Ao contrário, é o ser social que determina a consciência" (citado por Gilberto Cotrin, "Fundamentos da Filosofia", p. 181).
Nos termos da filosofia, Michel Foucault (foto) é um dos que vem demonstrar que há um ponto negligenciado pela teoria de Marx: o que aquele chama de "questão do discurso". Na verdade, "negligenciado" talvez nem seja a palavra correta. Vejam este trecho do próprio alemão: "O que distingue o pior dos arquitetos da melhor das abelhas é que ele projeta mentalmente a construção antes (grifo meu) de realizá-la" (idem, p. 25). Nesta questão, de uma coisa, ao menos, Marx sabia: que o mental é que distingue o ser humano dos animais.
Quem lê apenas os livros mais lidos do Foucault, o "Vigiar e Punir", o "Microfísica do Poder" e o "História da Sexualidade" fica, entretanto, apenas com uma parte da história. O que outros trabalhos do francês, como "Arqueologia do Saber", "Ordem do Discurso" e "As Palavras e as Coisas" fazem observar é justamente o fato de que a coerção típica do poder se dá justamente na mente do sujeito.
Entretanto, é bom alertar: para um leitor mais afobado, pode parecer sedutor dizer: "Que bom, Foucault descobriu o mecanismo do poder que existe em nossas mentes. Agora, é só domá-lo e eureka!, estamos livres". Não é bem assim. Uma atitude efetivamente crítica ou mesmo estética é sempre da ordem do raro e sempre dependente de articulações aleatórias que não mandam sinal de que estão chegando. A simbologia do consumo, sempre pautada por mitos como o da liberdade e o do prazer, engana. Faz crer, ao primeiro e desavisado olhar, que somos donos do próprio nariz. Essa ideia de "dono" ignora que o 'discurso' que o Foucault aponta é uma arena de batalhas incessantes e ininterruptas, entre a verdade (célula do discurso) e a consciência (que, como Marx percebeu em sua segunda citação, é o trilho por onde passa a primeira).
Em resumo: o poder está dentro de você, como uma arena inescapável. A reflexão atenta gera desvios interessantes, especialmente quando se consegue ampliar o olhar sobre a precariedade da verdade, mesmo quando ela parece mais forte e definitiva. Seriam pequenos momentos onde o trem sai dos trilhos, provocando o que chamamos de 'inteligência'. Não se escapa do poder; mas dá pra produzir pequenos escapes. Pequenas imposturas, para usar uma metonímia que é também metáfora, deste blog que tenta o diálogo reflexivo, para além da passividade contemporânea, que se esconde por sob as vestes do consumismo egóico.
Uma pequena reflexão ao preparar uma aula de filosofia, que eu troco com os leitores amigos.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Um mala e uma gafe

A diferença desta mala acima para o Luiz Roberto, narrador da globo, é que ela tem rodinhas.. Mas, como não tem outro jeito, assisti ao jogo do Fluminense ontem ouvindo as frases feitas do sem-alça global (antes que pensem mal de mim, não sou tricolor.. tava só querendo ver um pouco de futebol, mesmo e apesar dessa época tão mercadológica para o esporte.. meu time é o Flamengo).
Lá pelas tantas, a câmera filma o Parreira, novo técnico do Fluminense. Cara estudioso do futebol, ponderado e tal. Mas o bunda suja do Luiz Roberto tava mais interessado em elogiar a aparência física do cara. E soltou essa pérola: "O Parreira está com 66 anos!!... LITERALMENTE NÃO PARECE..."...
Quer inventar, quer fazer o que não sabe.. acaba se atrapalhando. Como sabemos, a expressão "literalmente" é usada quando pronunciamos alguma palavra ou expressão que possa conotar mais de um sentido. O objetivo é mostrar que o sentido que estamos usando é o comum e não alguma figuração, metáfora ou coisa parecida. Por exemplo: num jogo de futebol, o cara diz "fulano está morto!". Como existe um sentido figurado que é até corriqueiro para a palavra morto ("morto de cansaço"), cabe a ressalva, para o caso de um jogador morrer de verdade numa partida (exemplo macabro, mas enfim..): "Fulano morreu, literalmente!!"
O "literalmente não parece" do Luiz Roberto não tem o menor sentido, em nenhum sentido. Aliás.. denota, sutilmente, aquela coisa do eufemismo, que eu já considerei em alguns textos. O cara que fica muito "marqueteiro", cheio de historinha, acaba sentindo necessidade, em certos momentos, de dizer algo como se fosse: "pô, agora eu tô falando a verdade hein"...
É, tio Freud... Realmente a fala esconde incontáveis verdades-outras.. Tinhas toda a razão...
sábado, 14 de março de 2009
Identidade X Identificação

Tem uma frase do Jean Baudrillard que eu sempre que posso cito: "O Outro é o que me dá a possibilidade de não me repetir ao infinito".
Estava eu voltando da praia hoje e batíamos um papo eu e o Fernando, camarada do futevôlei. Dialogávamos sobre a condição feminina no mundo de hoje, um pouco de política e algo mais, que sempre escapa. Mas não é sobre a mulher este texto, apesar da foto. O tema é uma oposição interessante, que existe no debate teórico do mundo contemporâneo, e que impregna, como toda teoria, o pensamento cotidiano: identidade X identificação.
Se tem uma coisa que o livro "As Palavras e as Coisas", do filósofo Michel Foucault me ensinou, é essa tendência positivista das chamadas "ciências humanas". São ciências que, a priori, trabalham com a ideia de que estabelecem o seu próprio objeto. Nesse ponto, inclusive, estão anos-luz atrasadas em relação à física, por exemplo, que já reordenou seus pinos, atravessada pelo próprio objeto que tão soberbamente bradava como "seu".
E aí caímos nessa falseada dicotomia dita pós-moderna entre identidade e identificação. Anteontem, assisti, na Globo, o filme "Identidade". É um filme que já rendeu postagem aqui, inclusive. E se trata de um trabalho que sempre me traz reflexões novas, na medida em que montado a partir de uma trama cruzada muito sutil, que permite leituras abrangentes sobre o que é essa coisa que chamamos de mente.
Mario Quintana: "Alma é isso que pergunta se a alma existe". Tá aí, na pista do poeta, o que o Lacan exprime pela via inteligente da psicanálise: "A verdadeira natureza do eu em Freud [é] uma identificação imaginária, ou, mais exatamente, uma série englobante dessas identificações" ("Outros Escritos", p. 213).
Não existe verdade definitiva para o sujeito. E esse sujeito não é o condutor exclusivo de sua mente. O que nos constitui é um vazio que desliza por nomenclaturas. Alguns poucos filósofos sacaram isso. E não é à toa que Platão dava tanta importância para os poetas: eles enxergam sempre antes essas coisas (estou falando dos verdadeiros poetas, claro...).
Muito se discute hoje sobre a coisa das "identidades". Tema positivista, como o são as ciências humanas de uma maneira geral. Fica parecendo que o sujeito escolhe sua roupagem. Fica parecendo que usa várias roupas ao mesmo tempo, quando quer. Fica parecendo que é dono de seu querer.
Na noção de "identificação" se encontra o que Lacan aponta como "imaginário". O "eu" que está lá, do outro lado do espelho, é uma réplica. Que é tanto falseada como "original", quanto, inclusive, como "réplica". Ela, na verdade, é a única coisa que o sujeito é: uma réplica, condicionada por uma ilusão qualquer. Não há duplo, como bem lembra o Clement Rosset.
E o Baudrillard pode ficar tranquilo, esteja onde estiver: nunca nos repetimos ao infinito. Mesmo que façamos o maior esforço para isso, como é o caso dos fiéis do púlpito sagrado da moda e das séries mercadológicas. Por trás de toda a parafernália de circulação de mesmidades do mundo do consumo, escondem-se valores que insistem em perguntar, lá da alma, esse não-lugar, se é isso mesmo.
Para além do óbvio, existe o fragmentário. A diferença. Que é diferença principalmente do que se vê. Exercite essa questão: Com que tipo de símbolo essa mulher da foto se "identifica"? Qual é a "identidade" que desliza, ali, apesar de si mesma? "O inconsciente só se traduz em nós de linguagem" (Lacan); "A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio" (Fernando Pessoa); mais respostas.. mais respostas...
sexta-feira, 13 de março de 2009
Tragédia e reflexão no Clube do Livro
quinta-feira, 12 de março de 2009
...é assim que o EU vai...

O escritor e professor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza afirma que "as definições são equívocas e enganadoras" e que "a verdade só pode ser encontrada fora da linguagem, na interioridade do sujeito". Para ele, "é a interioridade que sustenta a verdade do signo" (Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise, p. 97). Há controvérsias, claro. Apesar de concordar que o lugar de fixação da verdade é o indivíduo-sujeito, a coisa é mais complexa. Como lembra o poeta Rainer Maria Rilke, já citado por aqui, "as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar" (Cartas a um Jovem Poeta, p. 23).
A reflexão deste momento pode ser levada a cabo através do sentido que ganha a palavra "normalmente" na citação de Rilke. Se acreditamos 'normalmente' no que querem nos fazer crer, é porque há, atuante, no ser humano, um princípio de concordância que estabelece consensos, mesmo que transitórios. Várias pessoas acabam seguindo uma tendência qualquer, a partir de algum laço que se cria entre elas, nos níveis da aceitação e da reprodução da ideia dominante na lógica.
E que 'laço' seria esse? Muito tem se debatido, no cenário teórico ocidental, a respeito da forma como se configura e se apresenta esse laço que estabelece uma norma. Isso leva a considerar a importância fundamental deste tipo de teoria que analisa a estrutura do discurso, ou seja, exatamente a avaliação das partes que compõem a simulação de determinado consenso.
O consenso da vez é o mercado. Mas não é apenas ele. Ele vem existindo desde que o capitalismo dava suas primeiras bufadas, no imediatamente após a Revolução Industrial. Há, portanto, mais a fuçar nas entrelinhas da 'norma mercadológica', na medida em que o capital, para manter-se na crista da crença, reordena suas contradições dia após dia.
Essa introdução se deu no intuito de jogar mais um exemplo de como podemos avaliar a que tipo de sistema ideológico se vincula o mercado ou a lógica da mercadoria, como se preferir. Trata-se do último comercial da marca de motos "Dafra", que vem crescendo suas vendas no Brasil a partir da surrada estratégia do crédito fácil e a longo prazo.
A história do comercial é simples. Uma multidão de pessoas de um lado e uma multidão de motos do outro. O ator global no centro, a dirigir ideologicamente a cena, apresentando os motivos que levam as pessoas a considerar a relação com o objeto de consumo da vez como sendo o fim de seus problemas e, mais do que isso, o início de uma liberdade sem fim e autoreferendada.
O transporte público é simbolizado como algo que deve ser banido da vida do sujeito, que encontraria todas as facilidades nas motos em questão. E há a frase final, extremamente importante para compor o enredo da história e para sacar que tipo de ideologia rege o arranjo do consumo: depois de adquirir o produto, o sujeito "não dependerá mais de ninguém". Por que depender dos outros, para a Dafra, é realmente uma furada.
Esse tipo de construção tem uma peculiaridade que quase sempre passa ao largo: seu problema não é a contradição que cria, mas justamente o estímulo que oferece ao que o sujeito possui de demanda egóica. Os espaços de linguagem coletivizada, neste particular, acabam servindo para sustentar o que o indivíduo já possui como mitologia narcísica. E isso cria um tipo de monstro semântico, que é a "norma do cada um por si". Todo mundo recebendo um mesmo tipo de informação, que, entretanto, se dirige ao eu de cada um em sua lógica insular.
As implicações disso? Basta pensar no que aconteceu com Narciso quando apaixonou-se por sua própria imagem. Esqueceu-se completamente do resto... E é esse o retrato do consumidor-padrão, aquele que segue à risca a norma dos comerciais. Ele acha que não depende de ninguém pra nada e, quando precisa de alguém ou quando precisa pensar em outro alguém, suas violências internas afloram ressentidas, revoltadas com o fim momentâneo da massagem egóica e com o retorno da sociabilidade recalcada.
É como diz o slogan das tais motos: "Dafra: VOCÊ por cima". Com todos por cima, ninguém segura as bases e o barco afunda. E há saída para isso?
segunda-feira, 9 de março de 2009
Não há vagas!

Como não tenho tesão nessa "mania de grandeza" do mundo de hoje - 'grandeza' bem discutível, enfim -, posso comentar a respeito. O fato é que, nessas reflexões que nos apanham de repente, parei a pensar nesses carros cada vez maiores que 'santo mercado' vem oferecendo a seus fiéis. Você anda pela rua e a cada dia vê mais desses veículos que são feitos com o tamanho maior em relação ao padrão, que ocupam cada vez mais espaço nas ruas, e cada vez mais o espaço nas vagas da cidade.
A questão é que, como sabemos, esse santinho do pau oco tá cagando e pisando em cima para o futuro de seus fiéis. Podemos sacar isso pensando numa cidade como São Paulo, que investiu nessa lógica de vender carros a torto e a direito, para depois remendar o equívoco com os tais rodízios, porque a cidade não suporta mais o crescimento das vendas. Santo mercadinho detesta um limite, coitado...
Tudo o que já é ultrapassado em países que já testaram essa lógica sem sucesso, acaba caindo aqui, no sentido de manter a roldana do capitalismo em movimento. Os países da Europa, Japão e Estados Unidos, estes passaram a investir em transporte público de qualidade, pensando nas consequências a médio e longo prazo da suruba merdológica nos transportes. Enquanto isso, no Brasil... "Ora, lá tem bastante árvore... Bota carro pr'esses trouxas comprarem.. A gente ganha uma graninha e tá tudo certo..."
Segundo li num blog, no ano passado, essa lógica tá atingindo também lugares antes preservados, como a China e Moscou, que sempre foi considerada cidade exemplar no que dizia respeito ao transporte público. Países que, para a maioria das pessoas, estão "crescendo"... Doce ilusão...
O fato é que é só escrever e cobrar: não vai demorar muito tempo pra esse tipo de padrão de veículo se expandir e criar sérios problemas de vagas nas ruas (como o da foto). Um tipo de questão que nunca foi simples.. Tende a piorar. Graças às missas de domingo nos shopping-centers, adoração fanática e vazia aos totens do consumo.
É mole ou quer mais?
domingo, 8 de março de 2009
Mulheres...

Vamos de uma forma um pouco mais descontraída, neste texto. Hoje é o dia da mulher. O que já é, em si, um tremendo preconceito, diga-se de passagem... Não existe um "dia do homem". Por que será? Prefiro deixar isso de lado, enfim..
O fato é que vi a imagem acima num site, quando procurava alguma coisa para ilustrar esta postagem. A legenda era reveladora: "A mulher perfeita". Quer dizer, a mulher perfeita seria aquela que não tem boca, pra não falar besteira, e que não tem olhos, pra não ficar se olhando no espelho a cada 45 segundos...
Nada mais injusto. Mas será mesmo? Para além da bazófia comercial de termos um "dia da mulher", vale pensar, neste dia, no quanto a mulher vem se degradando socialmente, de uns tempos pra cá. Sob as máscaras iluministas da igualdade, as mulheres vão tentando fazer tudo que antes era da competência única e exclusiva dos homens. E o fenômeno tem a faceta inversa também. E aí, temos essa miríade esquisita que é o mundo de hoje: mulheres com ombros largos de tanto malhar; homens que fazem a unha; mulheres que falam palavrão e cospem no chão; homens que usam camisetas rosas; mulheres que falam grosso; homens que falam fino...
É claro que devemos atentar para as exceções. Mulheres que conseguem aliar inteligência no trabalho com a manutenção de sua feminilidade. Mas o cotidiano vai mostrando que isso é cada vez mais raridade.
Outro exemplo vem da política partidária. Se pensarmos na história da mulher na política recente, vemos um quadro nada animador. A eleição de Violeta Chamorro, em 1990, na Nicarágua, eliminou as possibilidades de se manter mudanças sociais relevantes naquele país, que tentava uma revolução socialista; Margaretch Tatcher era quase um macho neoliberal; Condolezza Rice, nem preciso comentar... praticamente uma cadelinha do Bush; Essa alemã, Ângela Merkel, é muito crente nessa balela de "economia ambiental", que é, na verdade, um álibi para sustentar o capitalismo; e a mulher do Kirtchner, na Argentina, ainda não me convenceu... não teve, ainda, a postura firme (sem perder a elegância) de uma Evita Perón, talvez a única mulher que tenha dado contribuição de peso para a política dos últimos tempos.
No dia da mulher, acho que, numa perspectiva global, não há muito o que se comemorar. Vale, entretanto, ressaltar os exemplos particulares. Como o da amiga Karla, escrevendo cada vez melhor; Como o de minha amiga Ju, que tá sempre sumindo, mas que adora um papo inteligente, coisa cada vez mais rara... Como o da escritora Tania Rivera, de quem li dois livros, muito inteligentes e com moldura poética de peso; de todas as mulheres inteligentes, que participam dos debates sérios do Im-postura; das alunas que embarcam no barato de debater questões complexas, que nos fazem humanos para além da genitália e da imagem por detrás dos espelhos... Essas mulheres, que se superam, merecem os mais efusivos parabéns. Não pelo dia de hoje. Mas pela forma como levam todos os seus dias.
No geral, continuo achando mulher uma delícia. A coisa mais apetitosa que já apareceu... Mas continuo achando também que não pode ser só isso...
sábado, 7 de março de 2009
URSS, marxismo e Fidel

Ontem publiquei, no Clube do Livro, o segundo texto da série sobre o legado da União Soviética para o debate da história do pensamento. Ele termina a série, mas está lá, esperando a visita dos leitores e leitoras interessados em debater pontos da questão. Os links seguem abaixo, na ordem.
Abraços e beijos
sexta-feira, 6 de março de 2009
Rilke e a complexidade do simples...

Três fragmentos deste brilhante livro que estou lendo, 'Cartas a um Jovem Poeta', do Rainer Maria Rilke.
"Basta (...) sentir que seria possível viver sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo".
"Não se deixe enganar pelo que é superficial; nas profundezas tudo se torna lei. Os que vivem mal e de modo falso o segredo (e são muitos) o perdem só para si mesmos, e no entanto o transmitem como uma carta fechada, sem saber".
Mais do que defender a poesia, Rilke defende, nestas cartas, a simplicidade. E, paradoxalmente, o tanto de complexo que existe em pensar de forma simples. No mundo das plásticas (outra metáfora), que empurraram nossa vivência para um estado de fingimento impressionante, conseguir abrir frente e enxergar a simplicidade e a beleza do complexo é cada vez mais difícil.
Leia Rilke. Existem pistas por ali.
quarta-feira, 4 de março de 2009
No subterrâneo das atenções
Quantas e incansáveis
são as guerras deste mundo.
do alimento
contra o intestino.
entre a mosca
e o felino.
Quantas lutas solitárias
nossos eufemismos não vêem.
do tempo
contra o espaço.
entre a ordem
e o caos.
Frente a frente,
o Silêncio e o Homem,
a tentar dizer-lhe as miragens.
A vida é esse cinema-mudo de hostilidades,
que mantém acesas
as ironias do destino.
É esse ringue subterrâneo
de onde emergem as verdades,
feridas que pulam das entranhas
das máscaras da paz.
Cada sorriso é um salvo-conduto
que cai de pára-quedas
no pátio da angústia.
E as lágrimas?,
volta-e-meia
a guerrear com as convenções?
O instinto e as leis
Deus e o Diabo
O sono e os olhos
Os olhos... e o olhar.
Formigas assustadas,
carregamos folhas sobre as costas,
para não enxergar
as tempestades bélicas
que a prosa comum esconde.
E o poema é este combatente.
Soldado do conflito
a atirar granadas
para dentro da janela de cada espelho.
História e Ficção, Ficção e História

Até que ponto podemos dizer que um texto que se pretende histórico tem acordo com a verdade de fato? E o texto de ficção? Ele sempre inventa enredos, ou cria aproximações com o tal do real, esse eterno invisível? Essas são reflexões que estou desenvolvendo com a leitura do Luiz Costa Lima, que estou fazendo aos poucos, por conta da riqueza de detalhes de sua obra.
Diz ele que, "para que não recaia em uma concepção anacrônica de verdade, cabe ao historiador reconhecer sua inevitável parcialidade". E pergunta: "Não se tornaria o anacronismo ainda mais entranhado quando se supõe que a verdade do historiador se encerra no âmbito do factual?" (p. 89).
Certa vez li um livro muito interessante, do Balzac, que se chama "Ilusões Perdidas". É um tremendo documento sobre a falta de ética original do jornalismo, mesmo sendo deliberadamente um romance.
Por outro lado, me parece claro que um texto como o jornalístico, a despeito de sua retórica de factualidade, aparece sempre impregnado pela mitologia de seus construtores. É como diz o sábio Mario Quintana: "uma definição apenas define os seus definidores".
Aonde se encontra a fronteira entre a ficção e a história? Ou ainda: é correto utilizar essa metáfora da fronteira, ou algo como o horizonte serve melhor para a ocasião? Fronteira ou horizonte?
O fato é que há muita verdade em diversas ficções, assim como muita mentira em pretensos textos históricos. Dizem que a história é escrita pelos vencedores.. Tem sentido isso. Não que não existam verdades.. Mas absoluta mesmo, só a incompletude de nossa visão, acostumada às miniaturas e aos caprichos, como lembrou-me recentemente o Bachelard... Um ponto para estarmos sempre atentos, nós que prezamos pelo cuidado com a linguagem...
segunda-feira, 2 de março de 2009
O capitalismo e a saúde

Enquanto o gato guerreava com o chinelo, tentando destruir as tiras com os dentes, eu dava uma lida no livro de filosofia do ensino médio. Quando, então, deparei-me com esta pérola sobre a lógica capitalista:
"Quando era presidente da República (1985 - 1990), José Sarney tomou conhecimento desta prestação de contas de um laboratório farmacêutico:
Severo Gomes era ministro da Indústria e Comércio e recebeu um relatório de um grande laboratório internacional, destinado a seus acionistas, justificando os seus lucros baixos naquele ano: "O inverno foi muito fraco e, com o tempo bom, não tivemos a incidência de pneumonia nem complicações respiratórias. Os casos de gripe foram muito aquém de nossas previsões e os gastos com anúncios sobre nossos produtos, excessivos. Assim, pedimos a compreensão dos nossos acionistas para os baixos lucros, que não foram decorrentes da falta de esforço de nossos executivos". E continuava: "Contudo, as perspectivas de melhoria são excelentes. Todas as previsões meteorológicas indicam que vamos ter um rigoroso inverno, com novos vírus gripais, não sendo descartada a hipótese de incidência de epidemias. Assim, o volume de consumo dos nossos medicamentos vai ser muito grande e explosivo, compensando o fraco desempenho deste ano". Severo deu-me conhecimento do relatório e uma boa risada, advertindo que essa é a lógica capitalista".
Aos partidários da tal democracia, vale lembrar que Fidel está há 50 anos no poder em Cuba, mas certamente não riria de uma escrotidão dessas... Ou seja, o que é pior: a ditadura da saúde e da educação, ou a ditadura da risada cínica e criminosa?.. Cartas para a redação...
sábado, 28 de fevereiro de 2009
O crepúsculo da crítica nos "mega-sellers"

Desconfiar das unanimidades não é apenas um exercício de ponderação intelectual. É, nos dias de hoje, quase que uma necessidade, dadas as proporções com que crescem as desproporções entre o valor crítico e o valor econômico ou financeiro - como queiram.
O 'Prosa e Verso' de hoje traz uma matéria sobre o surgimento de uma nova nomenclatura relacionada às vendas de exemplares do chamado 'mercado editorial'. Segundo Rachel Bertol, autora do texto, os "sucessos" de vendas estão alcançando patamares nunca antes imaginados, o que geraria a necessidade de criar a denominação "mega-sellers" para designar os mega-vendedores, como essa simpática mocinha da foto acima, de nome Stephenie Meyer, autora da nova febre do momento, a série de livros chamada de "Crepúsculo". Em menos de um ano, a autora já vendeu 760 mil livros no Brasil, e chegou ao número de 45 milhões de livros no mundo, desde o lançamento da série, o que, segundo Rachel, muda (!!) o perfil do setor editorial.
Como desconfio das unanimidades e também das maiorias, vou dar meu pitaco. Coincidência ou não, 99% dos livros que vendem muito são muito fracos, tanto em termos de conteúdo quanto no sentido estético. Isso por um motivo muito simples. Vivemos uma época bem esquisita. Por um lado, é bacana dizer que se discorda do sistema, é bacana malhar a tudo e a todos. Um exemplo disso reside nas últimas eleições presidenciais, quando todos os candidatos se diziam "de esquerda" ou "de oposição", no intuito de ganhar a confiança dos eleitores. Por outro lado, temos o fenômeno discursivo do eufemismo, que leva as pessoas a, no cotidiano, evitarem de forma quase que fóbica a crítica, escapando sempre dos debates com formas atenuadas de posicionamento ou mesmo com humor exagerado e inócuo.
O crítico Humberto de Campos dizia, em 1958, que "o grande mal do Brasil tem consistido, proclamam-no todos, na falta de crítica: de crítica política, de crítica científica, de crítica literária, de crítica social. A falta de crítica nas letras, nas ciências, na política, na orientação coletiva dos homens, é que determina a anulação do sentimento de responsabilidade, origem de toda a desorganização" (Crítica, Primeira Série, Prefácio, p. 6).
A crença na democracia reside na ideia de que as massas são as melhores organizadoras de seu próprio destino, através do consenso. Entretanto, o fenômeno do consenso é bem ambíguo. O filósofo Theodor Adorno já demonstrou, com seu brilhante trabalho "Indústria Cultural", que a massa não pode ser vista como referência, nem de si mesma. A crítica disso pode ser calcada também em duas ideias da psicanálise: a de "reconhecimento" e a de "resistência". O neurótico, o comum dos homens, é aquele para o qual é fundamental saber-se fazendo parte de um contexto maior, que - senão importante - lhe seja reflexo. E, para que isso aconteça em seu imaginário, ele "resiste" a qualquer ideia que lhe traga o impecilho do impasse. Por essas e outras, não sou um democrata. Não acredito nas massas.
Ainda segundo a autora do texto, Rachel Bertol, "o mega-seller dificilmente existiria sem a globalização". Globalização que "eleva" a literatura ao patamar subterrâneo dos livros de auto-ajuda e ao público juvenil como referência de criação literária... Basta uma breve passeada pelos títulos mais vendidos para perceber que não há a menor "revolução" de fato, como alardeia a jornalista. Muito pelo contrário. Os livros do tal Harry Potter venderam, no mundo todo, mais de 400 milhões de cópias nos oito anos de sua existência. O "Código da Vinci", do tal Dan Brown, vendeu mais de 80 milhões, desde 2004. O recente "Segredo" chegou a 1 milhão e meio de cópias vendidas e aquela bobeira chamada "O Monge e o Executivo", que tive o desprazer de ler para corrigir os resumos de uma aluna, atingiu 2 milhões, em 4 anos de existência.
A mídia trata essas pessoas como influentes. Cria inclusive listas dos "mais influentes", onde todos estes estão presentes. Mas, quando perguntada sobre a influência da violência dos filmes de ação na cabeça dos jovens, escapa pela tangente. O fato é que o consenso é um mito curioso, que deve ser examinado com cuidado. Junto com outro, para o qual o filósofo francês Debord já chamava a atenção nos anos 60, em seu clássico "Sociedade do Espetáculo": a segmentação de mercado. Hoje, existe segmento de tudo. Mas há um simulacro por trás disso. E esse simulacro pode ser percebido quando sacamos que os livros que mais vendem são aqueles feitos para adolescentes. No fundo, o que manda hoje em dia é a ideologia do ser-adolescente-a-todo-custo. E aí, as influências e ecos que o discurso pautado pelo mercado produz são justamente a irresponsabilidade típica dessa fase criada pelo capitalismo.
Continuo achando que a literatura deve ter como referência a reflexão crítica. Que não interessa às massas, ávidas que são por novas massagens egóicas produzidas pelo leque apaziguador dos consensos. Pode vender milhões, pode encher o bolso dessa gente de dinheiro... mas não será literatura, porque literatura não é o que vende. É o que, como coloca o José Castello em seu texto da semana passada, fura nossas seguranças e, num rasgão, expõe a fogueira na qual ardemos.
"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Est'ética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíodre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Algumas pequenas im-posturas...

Alguns fragmentos. Argumentos. Faça alguma coisa com eles. São pequenas reflexões que vão construindo o asfalto movediço da minha estrada pó-ética.
(Marcelo Henrique Marques de Souza)
"A tradição literária tem a estrutura de um sonho no qual se recebem as lembranças de um poeta morto".
(Ricardo Piglia)
"A linguagem é algo de fulgurante que pode assumir uma outra dimensão, encontrar uma forma transversal".
(Jean Baudrillard)
"O ser do sujeito [é] aquele que está ali sob o sentido".
(Jacques Lacan)
"A economia ocupa o lugar que, na Idade Média, tinha a teologia".
(Luiz Costa Lima)
"Sobre o corpo, o sabor da onda, o gosto do sal e a carne a sorver a limpidez do efêmero".
(Wassily Chuck)
"Sou o limite de minhas ilusões perdidas".
(Gaston Bachelard)
Bergman

Assisti, ontem, ao belo filme "O Sétimo Selo", do Ingmar Bergman, considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos. Ele monta um enredo medieval, para ponderar temas universais, como as questões da morte e da relação entre a religião e a vida.
O filme conta a história de um cavaleiro que retorna das Cruzadas e se depara com seu país entregue à peste e à caça às bruxas. O filme é de 1956 e, segundo li, a temática do medo do extermínio da espécie humana estava em voga na época por conta do início da Guerra Fria na Europa (que trazia a coisa das bombas atômicas e temas afins).
Ao começar seus questionamentos sobre os problemas que presenciava, o cavaleiro encontra a morte. Envolvido em suas dúvidas, ele desafia a dita cuja para uma partida de xadrez, para ganhar tempo em suas reflexões. Nesse meio tempo, alguns personagens especiais são articulados ao cavaleiro. Não à toa um deles é um artista. E ele tem um simbolismo fundamental na trama, no meu entendimento. Reflete a visão do próprio Bergman sobre o que a arte representa para o ser humano.
Além de tudo isso, o filme tem o mérito de ser produto de uma rigorosa pesquisa histórica, que reproduz muito bem a atmosfera medieval. E tem diálogos muito inteligentes, o que sempre me agrada, particularmente. Quem ainda não viu, veja, porque vale a pena. É uma belíssima obra de arte, sem dúvida.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Breve recesso
Abraços e beijos
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
'Oi', sou o garoto-propaganda, o Pinóquio.. prazer!

O eufemismo da vez é a propaganda da "Oi", empresa de telefonia celular, que nos diz que é um absurdo cobrar multa dos clientes, no intuito de prendê-los a um contrato. É mais uma deslavada do mundo cara-de-pau da propaganda, que conta com a cada vez mais difundida rainha do contemporâneo, a passividade mental.
Ora, a "Oi", assim como todas as outras empresas de celular, cobraram a tal multa durante um bom tempo, até alguém, certamente ludibriado por algum exagero de uma das empresas, entrar na justiça buscando verificar a legibilidade da cobrança. Não foi, portanto, a empresa que decidiu acabar com a cobrança porque adora seus clientes... aliás, foi ela própria que passou um bom tempo cobrando a multa.. pra depois dizer: 'A Oi acabou com a multa". Mentira. A tal portabilidade é uma conquista legal e não um samaritanismo qualquer das empresas de celular.
Troféu cara-de-pau pra "Oi" e pras outras, que, com esse tipo de comercial, agem como aquele cara que fez alguma cagada e que, quando chegam os amigos piadistas, já vai sacaneando a si próprio, antes que alguém coloque uma pilha ou coisa semelhante. Malandragem das brabas... E o mais chocante: como todas são assim, como procurar uma troca que puna a malandragem? Fora o próprio retrato do ser humano contemporâneo que este tipo de caso ilustra... Malangragem, mentira, cara-durismo e impunidade... ou não é por aí?...
domingo, 15 de fevereiro de 2009
O narcisismo e a literatura

Em seu texto de ontem no "Prosa e Verso", José Castello comenta o livro "Pudim de Albertina", da escritora estreante Natália Nami.
A base da reflexão do autor, neste texto, é essa experiência de tentar excluir as doutrinações, tanto na leitura, quanto na escrita. Lembrando que somos sempre lidos pelos livros que aparentemente 'apenas lemos' - o que me recorda de um belo ensaio que li, chamado "A Troca Impossível", do Jean Baudrillard" -, Castello reflete alguns contos e enredos da escritora iniciante.
Um deles me chamou a atenção em especial, porque coincidentemente tem relação com um comentário que fiz outro dia num texto do blog do Ricardo, o 'Todo Prosa'. O conto, segundo reflete Castello, nos traz a história de uma professora do ensino primário que vai à festa de uma aluna rica. A aluna, "filha dos cartões de crédito e dos computadores", é a típica criança mimada e egocêntrica, que não experimenta, em seu dia-a-dia, o impasse e as benesses da perda, rio no qual navegamos nossas sombras, mesmo e apesar dos espelhos enganosos que surgem pelo caminho. O egocentrismo da criança chega ao nível de seu descontentamento por ter pedido de aniversário um cão dourado importado da Turquia, sem sucesso, visto que o animal a chegar tem a cor branca.
O comentário que fiz no blog do Ricardo tem relação direta com o escritor (?) Paulo Coelho. É o que reproduzo aqui:
Os livros do Paulo Coelho sustentam as infantilidades narcísicas dos leitores.. Vende horrores, justamente por isso, mais um ou outro acaso de mercado, como se vê aos montes. É uma figura simpática e tal.. mas não escreve bem.
Abraços"
Nesse ponto, sou Freud desde pequenininho: Sem o Mal-Estar, não há civilização. E sem figura paterna, não há Mal-Estar. No mundo de hoje, homossexualizado ao extremo pelos eufemismos e posturas 'politicamente corretas' (com o perdão do contradito) da vez, o que temos é um bando de egos que só brigam quando o problema é o em-si-de-si.
A troca é realmente impossível, como coloca o Baudrillard. E justamente por isso o navegar do humano é sempre pelo mar do impasse, da desconstrução constante, da desilusão inevitável e do choque frequente e rico (porque angustiante) com a diferença.
José Castello usa uma palavra que me parece fundamental: "extemporâneo". O inesperado, repentino, súbito. O impensado sempre ultrapassa, irônico, as grades do mais protegido dos egos. E estamos numa época onde a violência ganhou ares cotidianos justamente por isso. Não se pode ganhar sempre. Mas vai dizer isso ao reflexo aflito do bebê chorão contemporâneo...
E é isso que vem prontinho nos livros do Paulo Coelho. Um espelho para o leitor maquiar-se em suas reproduções auto-positivistas. Não há negação de nada nos enredos do "mago". Que enclausurou-se no seu próprio e distorcido sucesso. E é por isso que ele fica por aí, pelas entrevistas da vida, chorando um reconhecimento que jamais vai ter, porque escolheu o caminho do cão dourado, o caminho da pompa e da sofística de mercado. Literatura mesmo.. só se escrevesse um cachorro branco, presente de turco, espelho quebrado, para o leitor dialogar com seus próprios fragmentos.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Concreto ou Abstrato?..
Uma das questões que costumo abordar com os alunos, especialmente em filosofia, é a relação entre as palavras "concreto" e "abstrato". Concreto não é uma palavra? Ora, então.. concreto é, na verdade, algo abstrato. Essa palavra, abstrato, é bem curiosa. E nos permite diversas reflexões.
Uma consulta atenta ao dicionário de sinônimos é um bom começo. A palavra abstrair significa tanto "desprezar" quanto "concentrar-se". São opostos. Essa é uma daquelas palavras que denunciam a confusão da neurose. A ilusão de duplicidade de que fala o Clement Rosset.
Fernando Pessoa tem um trecho que ficou gravado na minha cabeça. Ele diz: "É preciso destruir o propósito de todas as pontes e vestir de alheamento as paisagens de todas as terras". Entendo a tal ponte como essa fiXão (com X mesmo, ironia do Magno, autor que estou lendo agora) do ser humano por um sentido fiXo que lhe assegure alguma certeza que possa repetir sem medo. Ora, daí a sagacidade do termo: fiXão que é sempre fiCÇão, visto que vigoramos no alheamento. Esse é o X (!) da questão.
Portanto, sem discordar do Pessoa, mas já radicalizando sua proposta, diria que toda paisagem que contemplamos é essa reticência de alheamento. O alheamento é esse labirinto no qual entramos, quando falessemos ('falamos e somos', 'falar e ser' no dizer lacaniano). É como diz o mesmo Pessoa, em mais uma de suas geniais: "O rio corre, bem ou mal, sem edição original".
Nesse sentido, essa coisa de "concretude" é um mito sólido, porém falível. O concreto seria isso que chamam de "palpável".. mas o palpável escorre pelas mãos da fiXão, quando uma peRDa pesa mais que uma peDRa, por exemplo. Aliás, o próprio Einstein já nos legou que esse papo de toque é uma interessante ilusão. Que na realidade o que ocorre é um fenômeno de repulsa. Os objetos nunca se encostam de fato... Reflexão que mesmo os newtonianos mais cabeças-duras têm que assumir...
Concreto... de concreto mesmo, temos o abstrato. O alheamento. E essa infinitude de olhares. Mas tome cuidado: um deles pode sempre te capturar, para o bem ou para o mal. Nada que defina o jogo, é claro. Nada que você não possa... abstrair.
Algumas reflexões literárias...

Estou lendo, empolgado, o livro de pensamentos sobre literatura do crítico e escritor argentino Ricardo Piglia (foto). Chama-se "Formas Breves" e tem coisas bem interessantes ali. Algumas que valem ser citadas, para o bem ou para o mal:
No primeiro capítulo, onde reflete a literatura argentina, especialmente a figura do escritor Macedonio Fernandes, Piglia cita várias vezes um tal de Renzi. Numa rápida pesquisa, descobri que se trata de seu alter-ego, um personagem que o escritor criou usando seus nomes menos famosos. Seu nome completo é Ricardo Emílio Piglia Renzi. Emílio Renzi é, portanto, o citado alter-ego. E numa das vezes em que cita o personagem, este diz, sobre o tema das relações entre o pensamento e a literatura: "(...) O pensar, diria Macedonio, é algo que se pode narrar como se narra uma viagem ou uma história de amor, mas não do mesmo modo. Parece-lhe possível que num romance se expressem pensamentos tão difíceis e de forma tão abstrata quanto numa obra filosófica, mas com a condição de que pareçam falsos. Essa ilusão da falsidade", diz Renzi, "é a própria literatura" (p. 25).
Esse final achei de uma sagacidade magistral. Colocar a literatura como uma ilusão de falsidade é uma ironia deliciosa e um dar de ombros sutil aos realismos bestas de plantão. É disso que se trata a literatura: de uma ilusão desdobrada, posta de frente para o espelho, num xeque-mate que traz o sujeito para uma partida que só se reinicia sem a presença do rei. A literatura é a nudez da linguagem.
Na página 18, ele cita Macedonio, que teria escrito o seguinte: "Os velhos são perigosos: completamente indiferentes ao futuro". Minha nota a este trecho: "Gosto de ouvir o perigo falar..."
Na mesma página, num trecho simples, o mesmo Macedonio nos alerta, citado, para que evitemos o contágio nesta sociedade que agoniza corroída pela avidez do dinheiro e das honrarias... Essa nota não vem datada, mas certamente é do início do século passado. Se vivo estivesse, Macedonio questionar-se-ia sobre sua poderosa capacidade oracular e, além disso, veria que hoje nem podemos mais falar nas honrarias.. já foram corroídas faz tempo...
E a leitura continua...
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Temeridades...

Domingo agora assisti um pedaço da entrevista do Michel Temer ao "Canal Livre", da Bandeirantes (esse papo de "band" é viadagem de marqueteiro...). Ouvi duas ou três besteiras, suficientes pra deixar a TV desligada por mais um bom tempo. Mas uma delas me fez pensar.
Temer (que por uma ironia do destino tem o sobrenome do político mais inteligente do país, na minha visão, o Milton Temer, do PSol. Já vi, inclusive, o Milton esclarecer, na TV, que não tem nenhum parentesco com o salafrário do PMDB) comentava uma pergunta de um dos jornalistas, não me lembro qual, sobre a cláusula de barreiras, manobra ditatorial dos grandes partidos, que foi engavetada pelo Supremo. Para quem não sabe, trata-se da visão de alguns de que existem partidos pequenos que agem como se alugassem seu espaço institucional, no sentido de barganhar vantagens eleitoreiras e até financeiras, por conta de votações de medidas e acordos entre parlamentares.
Alguns detalhes, para além do que disse o Temer, precisam ser considerados. Por um lado, há uma certa razão no que essa corrente diz. Se pegarmos, por exemplo, a quantidade de nomenclaturas cristãs da política partidária, só aí já eliminaríamos uns 5 ou até mais partidos. Bastaria fundi-los num grupo só, e ninguém sentiria diferença ideológica.
Entretanto, a cláusula de barreiras afetaria alguns partidos pequenos que têm ideologia diferente dos demais, e que são responsáveis por várias brigas pelo interesse público, no Congresso. O PSol, por exemplo, seria prejudicado, mesmo com atuação clara contrária aos interesses do grande capital, portanto de PSDB e PT.
Outra questão é bem sutil, e foi colocada na pergunta seguinte ao Temer, que saiu pela tangente e não respondeu. O partido dele, o PMDB, é o maior partido de aluguel do país. Não tem ideologia efetiva e definida. Tá sempre cheirando o rabinho do poder, em busca de cargos e dos holofotes dos baba-ovos da mídia. Portanto, é uma tremenda cara-de-pau que o tema venha pleiteado por um partido desses. Basta ver a foto acima: o que o Temer tem em comum com Menininha e Menininho, ambos de seu partido, além da cara-de-pau? Absolutamente nada...
A verdade é que o barato é transformar o Brasil num país como os Estados Unidos, que só têm dois partidos, que pensam muito parecido. Como PT e PSDB, que quase não possuem diferenças fundamentais. Ambos não têm projeto para educação, para saúde, para habitação... só pensam em rezar as cartilhas de seu guru, Adam Smith, que inventou a bazófia de que o capitalismo retrata o que é uma sociedade humana, e todo mundo acreditou... E não venham me dizer que o Lula é marxista... deixa o defunto do homem quieto lá..
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Livros de janeiro
Em janeiro, deu pra ler bastante:
Terminei de ler o livro do Clemént Rosset, O Real e seu duplo - ensaio sobre a ilusão. O duplo seria essa ilusão cuja função é proteger do real, cuja estrutura se dá como tentativa de desdobramento do real e cujo fracasso se mostra no "reconhecer tarde demais no duplo protetor o próprio real do qual se pensava estar protegido" (p. 119). Um belo livro do filósofo francês, que nos incita a exorcizar nossos duplos, no exercício de uma experiência limite que coloque em xeque os fantasmas correspondentes a nossas ilusões. Exemplo que ele cita é o quadro "O Ateliê", também conhecido como "A Arte da Pintura", do pintor holandês Vermeer, reproduzido acima. Diz Rosset que, "renunciar a pintar-se de frente equivale a renunciar a se ver, quer dizer, renunciar à ideia de que o eu possa ser percebido numa réplica que permite ao sujeito apreender-se a si mesmo" (p. 107). Por fora da ilusão, Vermeer teria pintado sua ausência, num exercício de indiferença que lhe pos em encontro com o real. O livro vale muito a pena.
Li também os Escritos sobre Literatura do Goethe, onde ele reflete a importância de Shakespeare para a história da humanidade, para a poesia e para o teatro, além de pensat questões mais gerais a respeito da própria poesia, como já coloquei em outro texto, do mês passado. Outro que é uma grande indicação.
Outra leitura superagradável foi o livro do Aldir Blanc, Guimbas, que li rápido, em dois dias, deliciando-me com as porradas do Aldir na passividade contemporânea, especialmente na figura retórica do "politicamente correto". E já que estamos perto do carnaval, vale postar uma boa dele, na lata: "O carnaval foi uma festa do povo. Hoje é um desfile de putas, ou quase isso, ou pouco mais que isso, que se acham celebridades; conduzido e organizado por viados, que se julgam artistas geniais; todo mundo financiado por um pessoal que vive entrando e saindo da cadeia. Mas, como diz a modinha, 'a saudade mata a gente' " (p. 52). Estás coberto de razão, mestre.
E por fim, li o Apologia de Sócrates, livro onde Platão descreve o monólogo do grande filósofo e seu mestre, onde este se defende das acusações de corromper a juventude ateniense. Aula fundamental de ética esta obra.
Ate o mês que vem.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Os dez mais do século XX

Fiz uma lista dos dez maiores nomes do século XX, na minha opinião. Parece fácil.. mas muita gente boa ficou de fora, como James Joyce, Michel Foucault, Jean-Luc Godard e a escritora Agatha Christie, dentre outros. Mas vale o exercício. Dê uma olhada na lista e indique quais os nomes que você mudaria (ou até se mudaria todos). O maior deles todos, pra mim, foi o pai da psicanálise, Sigmund Freud (na montagem acima, em várias fases de sua vida), que atravessou toda a epistemologia do século XX, colocando, inclusive, a própria ideia de "epistemologia" em crise. Foi o maior de todos. Mas exercite suas discordâncias.
Abraços e beijos.
A Lista:
1 - Sigmund Freud - psicanálise
2 - Albert Einstein - física
3 - Fernando Pessoa - poesia
4 - Salvador Dali - pintura
5 - Jacques Lacan - psicanálise
6 - Fidel Castro - política
7 - Pablo Picasso - pintura
8 - Alfred Hitchcock - cinema
9 - João Guimarães Rosa - literatura
10 - Luciano Pavarotti - música
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Chega de gente escrota, pelo menos por enquanto

Nos últimos dias, muitos crápulas passaram por aqui, citados direta ou indiretamente. Portanto, vamos tornar o recinto um pouco mais leve (e inteligente). Aí vão duas pérolas do mestre Mario Quintana, sobre outro grande nome, William Shakespeare (e tem gente que ainda prefere o outro William, o Vaquinha de presépio). Deliciem-se:
"Essa mania de ler sobre autores fez com que, no último centenário de Shakespeare, se travasse entre uma professorinha do interior e este escriba o seguinte diálogo:
Que devo ler para conhecer Shakespeare?
- Shakespeare".
Mais uma das vacas peladas...

A última do Jornal da Globo foi noticiar, hoje, números de "redução" da violência no Rio de Janeiro como uma vitória da ação do governo do Sérgio Cabral. Cabralzinho e o tal do Beltrame, secretário de segurança, foram entrevistados e reiteraram que não recuarão, como querem "os bandidos". O governador enfatizou: "Estamos numa guerra!".
Trata-se de mais um factóide, que, para se transformar em eco, tem o auxílio da omissão da rede globo, que tem afinidade ideológica clara com as políticas avessas à prevenção, tanto do governo do Estado quanto da prefeitura.
Esse Sérgio Cabral é outro pulha, que não engana quem pensa um pouquinho. Durante evento de campanha (foto), no Tijuca Tênis Clube, em 2006, Cabralzinho se desmanchou em elogios ao então candidato a deputado Álvaro Lins. Disse ele: “Ter na Assembléia Legislativa um deputado com a inteligência, a vibração, a energia, o caráter de Álvaro Lins para mim é fundamental como governador do estado do Rio de Janeiro. Fundamental, Álvaro. Fundamental” (negrito meu).
Dois anos depois, mais precisamente no dia 29 de maio de 2008, Álvaro Lins acabou sendo preso, acusado por crimes como facilitação de contrabando, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada. Diga-me com quem andas...
A foto acima, inclusive, quase sobe o vômito, de tanta coisa nojenta junta. Da esquerda para a direita, a corja reunida: Cabral, Francisco Dornelles, Álvaro Lins e Marcelo Itagiba. Todos figuras que ilustram o que há de mais podre e retrógrado na política do Rio de Janeiro.
No que vale reiterar: a posição do Cabral é essa: policial tem que matar bandido. O problema é que não estamos mais no passado, quando ainda havia uma fronteira entre os dois grupos. O poder público tá cheio de bandido, vigaristas e canalhas, que utilizam a tal da 'máquina' para obter lucro e mais força e influência.
Entrevistado, o tal do Beltrame respondeu: "Existem duas saídas: partir pra cima dos bandidos ou ficar parados. Não vamos parar"... Na cabeça de lombriga dele, só existem essas duas patéticas opções. Investimento em educação, que é bom, nada... E vamos continuar aturando esses imbecis iletrados intelectualmente e desonestos, que não fazem o que tem que ser feito: resolver o problema na raíz, e não na ponta final, dando murro em ponta de faca.
Continuem votando nos Eduardo Paes da vida... A bandidagem agradece...
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Cidades grandes, pensamentos pequenos ou "Mais um pouco sobre a mitologia jornalística"...

Um dos principais mitos que surgiram com a tal "Revolução Industrial" foi o da 'cidade grande' como referência de evolução no plano social. Com a necessidade de aumentar os lucros, os capitalistas importaram gente das cidades do campo, para aumentar tanto a produção, quanto o consumo.
Entretanto, como bem mostra o filósofo Karl Marx, o capitalismo vive às turras com suas contradições internas. Mas a idéia distorcida surge bem antes, quando o filósofo Francis Bacon decidiu, no século XVII, que o "progresso" era uma coisa boa e fundamental. A própria idéia de Modernidade tem também esse otimismo impregnado em suas veias.
Esse intróito é para refletir duas notícias do 'Jornal da Globo' de agora há pouco, que assisti depois de longo tempo, sempre me divertindo com as caras e bocas da caveira William Vaca e da patricinha Cristiane Pelada, esforçando-se para alimentarem a cara das notícias que veiculam com uma importância que elas de fato não têm. Uma das notícias mostrou um ataque de vândalos ao bairro do Morumbi, em São Paulo, que foi rechaçado pela tropa de elite da polícia paulista. E a segunda, informava que este mês o número de desempregados na China chegou a 20 milhões, segundo fontes oficiais, com a ressalva de que o contingente poderia chegar a 40 milhões, mesmo número da população inteira da Argentina. Ainda segundo a reportagem, muitos desses chineses estariam voltando para o campo, diante da falta de emprego nos centros.
Como a reportagem se limita a sua própria mediocridade, tentemos ir além. A arquitetura conjuntural das grandes cidades é clara a quem observa com atenção: número grande de pobres, que ficam responsáveis pelo serviço "podre" da cidade, que é o das obras imobiliárias, coleta de lixo, trabalhos de segurança e risco etc. E um número reduzido de ricos e quase ricos, que usufrui das patotas e das condições econômicas e contextuais de berço, para se perpetuar no poder de ação. Em outras palavras, podemos traduzir isso como 'uma bomba relógio em constante contagem regressiva'.
Milhões de pessoas são incitadas e expremer-se em pedaços geográficos desproporcionais, criando cenários claramente implosivos. E isso chegou à China, que possuía população predominantemente rural, mas migrou para o estilo de vida norte-americano. Já tem gente, por lá, falando em caos social, como colocou a reportagem.
No caso do Brasil, junte-se a isso um sistema educacional completamente sucateado pelos governos que tivemos desde o fim da ditadura militar e início da ditadura do capital, e temos o estopim da barbárie: carros sendo queimados na rua, pessoas sendo baleadas, depredação de estabelecimentos comerciais... e dois apresentadores esforçando-se para frisar a culpa 'única e exclusiva' dos vândalos da periferia.
O modelo de cidade grande não funciona em lugar nenhum. Gera necessidade de rotatividade incessante de consumo, o que a própria demanda das pessoas não sustenta. E acaba construindo diversos tipos de "cânceres sociais", que vão minando as possibilidades de convívio e criando insegurança galopante e interminável.
Enquanto não houver um redirecionamento geopolítico no terceiro mundo, que altere significativamente a desproporcionalidade entre "cidade grande" e campo, continuaremos caminhando para a selvageria consentida.
Enquanto isso, o mesmo 'Jornal da Globo' anuncia que já há movimentação visando as próximas eleições presidenciais, no ano que vem. De um lado estão os "governistas", capitaneados pelos petistas, e de outro a oposição, liderada... pelos tucanos (!!!!????). Ora, vão ver se eu tô na esquina... O PSDB não é oposição nem aqui, nem na China. Os projetos são exatamente os mesmos que os do PT. Não há programa para educação, nem para saúde e muito menos para habitação. O barato dos dois é sustentar as taxas que o mercado tanto adora alardear pela boca dos Willians Vacas da vida: taxa Selic, juros, risco-Brasil, e outras baboseiras...
Portanto, é bom começarmos a pensar direitinho nessa eleição de 2010, e no papel da mídia na manutenção dos velhos mitos sacanas, como esse da "oposição tucana". O projeto continua sendo transformar o Brasil em meia-dúzia de Miamis cercadas por centenas de Haitis por todos lados.
É como diz uma divertida comunidade do orkut: "PT e PSDB, nunca mais!" E, completo eu: 'Jornal da Globo', só com os antídotos bem a postos...





